Primeiro foi um ministro. Depois outro. Depois um vice-primeiro-ministro. Depois começaram a aparecer homens do Gabinete Presidencial. Depois antigos sócios. Depois amigos. Finalmente chegou Andriy Yermak, que durante anos não era propriamente um funcionário que Zelensky encontrava ocasionalmente junto à máquina do café, mas o seu chefe de gabinete, braço direito e segundo homem do regime. Yermak acabou constituído suspeito num processo de alegado branqueamento de cerca de 10,5 milhões de dólares e foi detido preventivamente em Maio deste ano.
Antes dele já lá estava Timur Mindich, velho amigo de Zelensky e seu antigo parceiro empresarial na Kvartal 95. É apontado como figura central da Operação Midas, o esquema de comissões na empresa nuclear estatal Energoatom que, segundo os investigadores, terá movimentado cerca de 100 milhões de dólares. Mindich saiu entretanto para Israel. No mesmo emaranhado apareceu Oleksiy Chernyshov, antigo vice-primeiro-ministro e homem próximo de Zelensky, e Herman Halushchenko, antigo ministro da Energia e depois ministro da Justiça.
Mas a Presidência tinha mais talento disponível. Andrii Smyrnov, antigo vice-chefe do Gabinete Presidencial, chegou a tribunal acusado de enriquecimento ilícito de 15,7 milhões de hryvnias, além de branqueamento e suborno. Rostyslav Shurma, outro antigo vice-chefe, foi investigado no âmbito de negócios ligados à energia. Oleh Tatarov, também vice-chefe escolhido por Zelensky, chegou a ser suspeito num processo de suborno ligado à construção de habitação para a Guarda Nacional; o caso acabou encerrado depois de uma longa batalha sobre quem o devia investigar.
Olha Stefanishyna, vice-primeira-ministra, ministra da Justiça e posteriormente embaixadora nos Estados Unidos, foi constituída suspeita este mês por enriquecimento ilícito de 13,9 milhões de hryvnias e falsas declarações patrimoniais. E, ainda esta semana, Iryna Mudra, vice-chefe do Gabinete Presidencial, foi despedida depois de buscas da NABU no âmbito de uma investigação a um esquema que terá branqueado cerca de 3,4 milhões de dólares através de um banco estatal para pagar a caução de Halushchenko.
Também Mykola Solskyi, ministro da Agricultura de Zelensky, foi constituído suspeito num processo sobre a apropriação ilegal de terrenos públicos avaliados em cerca de sete milhões de dólares. E, um pouco mais afastado do gabinete mas bastante menos afastado da história política de Zelensky, temos Ihor Kolomoisky, o oligarca dono do canal que lançou a carreira televisiva do futuro Presidente e que apoiou a sua candidatura em 2019. Está preso e enfrenta processos por fraude e branqueamento, além de ter sido posteriormente constituído suspeito de ordenar uma tentativa de homicídio ocorrida muitos anos antes. A determinada altura torna-se cansativo chamar coincidência a tudo.
Naturalmente, a corrupção da Ucrânia não cabe no círculo presidencial. Seria até ofensivo para a dimensão do fenómeno. Há processos contra deputados, governadores, juízes, procuradores, responsáveis aduaneiros, dirigentes de empresas públicas, oficiais militares e empresários. A investigação anticorrupção chegou ao Supremo Tribunal, à defesa, à energia, ao gás, às terras públicas, à construção, às alfândegas e às compras militares. Em 2025, NABU e SAPO investigavam dezenas de deputados no activo e antigos parlamentares.
A guerra também não conseguiu estragar o negócio. Encontraram-se esquemas na alimentação das Forças Armadas, na compra de drones, em sistemas de guerra electrónica, em equipamento militar e na construção de habitação para soldados. Houve contratos em que as alegadas comissões chegavam aos 30%. Houve ainda redes que recebiam dinheiro para permitir a homens escapar à mobilização e até uma investigação sobre donativos estrangeiros destinados a ajudar a Ucrânia no início da invasão. O patriotismo, aparentemente, tem várias modalidades de pagamento.
Só no primeiro semestre de 2026, a NABU abriu 360 novos processos, constituiu 107 pessoas suspeitas e registou 76 condenações. A Transparency International dá actualmente à Ucrânia 36 pontos em 100 e coloca-a em 104.º lugar entre 182 países no índice de percepção da corrupção. Melhor do que noutros tempos, sem dúvida. Também não exactamente a Dinamarca.
E depois aconteceu uma coisa particularmente curiosa. Em Julho de 2025, com as instituições anticorrupção a aproximarem-se cada vez mais do poder, Zelensky promulgou uma lei que retirava independência à NABU e à SAPO e colocava ambas sob maior controlo do procurador-geral. O procurador-geral era, evidentemente, escolhido pelo poder político. Milhares de ucranianos foram para a rua, Bruxelas protestou e começaram a surgir problemas bastante desagradáveis com a candidatura à União Europeia. Nove dias depois, Zelensky recuou e a independência das duas instituições foi restaurada.
Foi certamente outra coincidência. A mesma NABU que estava a ser amansada investigava, ou viria a investigar, antigos vice-primeiros-ministros, homens da Presidência e pessoas muito próximas do Presidente. Um ano depois, encontramos o antigo chefe de gabinete preso, um velho parceiro empresarial acusado de comandar um esquema de 100 milhões de dólares e mais membros da entourage presidencial espalhados pelos processos. Não é necessário inventar uma conspiração. A realidade já faz um trabalho razoável.
Tudo isto teria principalmente interesse doméstico se a Ucrânia estivesse a pagar sozinha a sua guerra e o funcionamento do seu Estado. Não está. Segundo o Ukraine Support Tracker do Kiel Institute, até Junho de 2026 os aliados já tinham alocado cerca de 374 mil milhões de euros em apoio militar, financeiro e humanitário à Ucrânia. Os compromissos assumidos ultrapassavam 549 mil milhões. Quase meio bilião de euros comprometidos para um Estado onde as autoridades continuam a encontrar esquemas de corrupção na energia, na defesa, nos tribunais, nas empresas públicas, nas alfândegas, na administração regional e no próprio círculo presidencial. Mas aparentemente perguntar pelo dinheiro é considerado de mau gosto.
E há mais a caminho. Só o novo empréstimo europeu para 2026 e 2027 ascende a 90 mil milhões de euros, metade dos quais prevista para este ano. Dos 45 mil milhões de 2026, 28,3 mil milhões destinam-se a despesas militares e 16,7 mil milhões ao apoio geral ao orçamento ucraniano.
Durante anos criou-se esta extraordinária regra moral segundo a qual fiscalizar a Ucrânia era “ajudar Putin”. Perguntar pela corrupção era propaganda russa. Perguntar pelos contratos era falta de solidariedade. Perguntar como eram gastos milhares de milhões de euros significava, por misteriosos mecanismos geopolíticos, apoiar Moscovo. É um conceito admirável de democracia: os contribuintes pagam, os governos enviam e ninguém faz perguntas porque Putin pode ficar contente. Entretanto, a própria NABU continuava a prender ucranianos. Talvez também trabalhe para o Kremlin.
Ao longo de quatro anos foi possível sustentar esta infantilidade porque Zelensky deixou de ser tratado no Ocidente como um político e passou a ser tratado como uma personagem moral. Os políticos administram dinheiro, escolhem colaboradores e respondem pelo funcionamento do Estado. As personagens morais aparecem nas capas das revistas.
O problema é que entretanto começaram a aparecer os colaboradores. Yermak, Mindich, Chernyshov, Halushchenko, Smyrnov, Shurma, Tatarov, Stefanishyna, Solskyi, Mudra. Um chefe de gabinete, vice-chefes da Presidência, ministros, vice-primeiros-ministros, um velho amigo, um antigo sócio. E à volta deles, centenas de outros processos num país em que até contratos destinados a alimentar, equipar e alojar soldados em guerra conseguiram produzir oportunidades de enriquecimento.
Pode discutir-se cada processo durante horas. Pode explicar-se que determinado facto ocorreu antes de determinada nomeação, que outro suspeito não era propriamente amigo íntimo do Presidente, que uma investigação não equivale a uma condenação. Tudo verdade e tudo bastante lateral. A questão política é muito mais simples. Zelensky chegou ao poder prometendo limpar este Estado. Talvez tenha chegado a altura de pedir as contas.

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