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sábado, 4 de julho de 2026

UMA REFLEXÃO:

Enquanto, na Europa, se discutem novos compromissos militares, percentagens do PIB para a NATO e estratégias para enfrentar um mundo cada vez mais instável, noutro ponto do planeta milhões de pessoas acompanham, em profundo recolhimento, as exéquias de um dos mais importantes líderes religiosos do mundo islâmico, morto num ataque atribuído a Israel, no contexto do conflito regional e do apoio estratégico dos Estados Unidos.
São imagens que pertencem ao mesmo tempo histórico, mas parecem revelar duas formas muito diferentes de compreender o mundo e talvez seja precisamente aí que resida uma das grandes questões do nosso tempo.
Ao longo das últimas décadas, o Ocidente habituou-se a medir o progresso pelo desenvolvimento tecnológico, pelo crescimento económico, pela liberdade individual e pela capacidade de inovar. Tudo isso representa conquistas inegáveis da civilização moderna. No entanto, talvez se tenha criado a convicção de que a modernidade implicaria, inevitavelmente, um afastamento das grandes referências espirituais e simbólicas que, durante séculos, ajudaram a construir a identidade das sociedades.
Em muitas regiões do mundo islâmico, porém, observa-se um percurso diferente. A tecnologia foi acolhida. A ciência evoluiu. As universidades multiplicaram-se. As comunicações tornaram-se globais. Mas a religião permaneceu como elemento estruturante da vida coletiva. Ela continua presente na linguagem, na forma de vestir, nos rituais, nas relações familiares e na consciência de pertença a uma comunidade que ultrapassa o indivíduo.
Naturalmente, não existe um único Islão. A Indonésia não é o Irão. Marrocos não é a Arábia Saudita. A Turquia tem uma história própria de aproximação ao modelo europeu, enquanto outros países seguiram caminhos distintos. Ainda assim, permanece um traço comum: a religião continua, para muitos milhões de pessoas, a constituir um dos pilares visíveis da identidade coletiva.
Em contraste, grande parte da Europa percorreu um caminho diferente. A religião deixou de ocupar um lugar central na vida pública. Muitos dos símbolos que durante séculos marcaram o espaço europeu passaram a ser considerados meramente culturais, quando não incómodos. O indivíduo ganhou uma liberdade nunca antes conhecida, mas essa liberdade parece, por vezes, caminhar ao lado de uma dificuldade crescente em responder a uma pergunta simples: afinal, o que nos une enquanto comunidade?
Talvez esta seja uma das razões pelas quais muitos europeus observam outras civilizações com alguma perplexidade. Vêem multidões unidas por uma mesma fé, por símbolos comuns, por um sentimento coletivo de pertença, e interpretam frequentemente essas manifestações apenas como sinais de atraso ou de conservadorismo. Mas será essa leitura suficiente? Será possível compreender uma civilização ignorando aquilo que lhe dá sentido interior?
A História mostra que nenhuma sociedade vive apenas da economia, da tecnologia ou do poder militar. Todas necessitam de referências que lhes permitam reconhecer-se, transmitir valores entre gerações e encontrar motivos para enfrentar as dificuldades. Essas referências podem assumir formas religiosas, culturais, filosóficas ou nacionais, mas dificilmente uma civilização subsiste durante muito tempo se perder completamente a consciência daquilo que a distingue.
Talvez seja esta a interrogação que o Ocidente deveria colocar a si próprio. Não tanto saber se as outras civilizações estão certas ou erradas, nem procurar impor-lhes os seus modelos de vida, mas perguntar se continua a reconhecer os fundamentos da sua própria identidade.
Porque uma civilização raramente desaparece apenas por derrota militar ou por pobreza económica. Muitas vezes começa por enfraquecer quando deixa de acreditar naquilo que a fez existir.
Não é uma questão de regressar ao passado, nem de medir a fé dos povos. É, antes, uma reflexão sobre a necessidade de cada sociedade conservar uma consciência de si própria, dos seus valores, da sua memória e dos símbolos que lhe dão continuidade e, ao mesmo tempo, aprender a aceitar a dos outros, sem criticas e exageros.
Num mundo que caminha para uma ordem cada vez mais multipolar, talvez a maior força de uma civilização não resida apenas na riqueza que produz, nas armas que possui ou na tecnologia que domina. Talvez resida, sobretudo, na capacidade de continuar a saber quem é.

João Gomes

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