Há países com sistemas desportivos sólidos, dados públicos, avaliação independente, relatórios anuais, metas verificáveis e políticas sustentadas. Depois há Portugal, que, não tendo propriamente a melhor organização desportiva da União Europeia, compensa essa modéstia estrutural com uma extraordinária capacidade de representação institucional em grandes acontecimentos internacionais.
No plano dos indicadores, aparece no fundo da tabela. No plano das fotografias oficiais, aparece quase sempre na primeira fila.
É uma curiosa forma de desenvolvimento desportivo: quando os resultados comparativos são fracos, reforça-se a comitiva; quando faltam dados, aumenta-se a cerimónia; quando não há avaliação, multiplicam-se declarações; quando o sistema não produz evidência, produz enquadramento fotográfico. O país pode não ter o melhor desporto da União Europeia, mas tem uma notável vocação para transformar cada jogo da seleção nacional numa procissão política da nomenclatura nacional.
Num Mundial sob os olhares do mundo, seria de esperar alguma contenção institucional. Mas Portugal conseguiu distinguir-se: Presidente da República, Presidente da Assembleia da República Primeiro-Ministro e figuras adjacentes sem conta deslocaram-se aos Estados Unidos para acompanhar a seleção nacional. Da União Europeia, Portugal surge, pelo menos no levantamento público disponível, como caso singular. Não por liderar os indicadores de desenvolvimento, não por apresentar uma governação exemplar, nem por revelar especial competência na governação desportiva, mas por conseguir pôr a política em lugar destacado junto do espetáculo futebolístico.
O futebol tornou-se, assim, a nova religião do Estado português. Tem altares televisivos, liturgias patrióticas, procissões oficiais, hinos, cachecóis, fotografias de comunhão nacional e peregrinações institucionais ao estrangeiro. A diferença é que, neste culto, os fiéis pagam impostos e os celebrantes viajam em representação pública.
É uma ironia difícil de ignorar. O país que, no quadro comparativo do Nível Desportivo, aparece no último lugar da União Europeia, comporta-se como se estivesse na pole position da governação desportiva. Somos fracos nos indicadores, mas fortíssimos no protocolo. Não lideramos na Base, na Elite ou no Rendimento, mas lideramos facilmente na capacidade de transformar o futebol num cenário de legitimação político-religiosa. Quando faltam resultados, exige-se fé. Quando faltam dados, celebra-se a crença.
O problema não está em os responsáveis políticos apoiarem a seleção nacional. Isso é normal e legítimo quando feito com sobriedade, critério e sentido de Estado. O problema começa quando esse apoio se transforma em encenação, quando a presença política procura boleia emocional no sucesso dos atletas e quando a pergunta essencial fica sem resposta: qual é o interesse público concreto destas deslocações, quanto custam, quem as paga, que utilidade têm e que prestação de contas é feita aos cidadãos?
Há aqui uma contradição de fundo. O mesmo Estado que não consegue apresentar dados públicos consolidados sobre programas como o UAARE, que não publica relatórios de impacto, que não mostra claramente quem beneficia dos apoios e que não avalia com rigor o retorno educativo, social e competitivo dos programas, revela uma rapidez notável quando se trata de aparecer junto da seleção nacional. Para avaliar, demora. Para publicar dados, hesita. Para prestar contas, complica. Para ir ao Mundial, organiza-se e veste, por conta própria, a camisola amarela.
A política desportiva em Portugal parece sofrer de uma doença antiga: falta-lhe ginásio estratégico, mas sobra-lhe camarote institucional. Falta-lhe treino de longo prazo, mas não lhe falta condição física para os grandes eventos. Falta-lhe avaliação, mas não lhe falta pose. Confunde presença com política, fotografia com estratégia e apoio simbólico com desenvolvimento desportivo.
Podemos sorrir perante a imagem de um país que, estando em último lugar nos indicadores, entra no Mundial com aparato de campeão administrativo. Podemos brincar dizendo que Portugal talvez não tenha o melhor desporto da União Europeia, mas tem uma invejável seleção de acompanhantes oficiais. Podemos até admitir que, se houvesse uma competição internacional de presença protocolar, talvez aí estivéssemos finalmente no pódio.
Mas a questão é séria. O verdadeiro patriotismo desportivo não está em aparecer na tribuna quando a seleção joga. Está em construir, durante anos, as condições para que mais portugueses pratiquem, mais jovens tenham oportunidades, mais talentos sejam descobertos, mais atletas cheguem à excelência e mais resultados sejam produzidos com transparência e responsabilidade.
Portugal não precisa de menos apoio à seleção. Precisa é de mais vergonha estatística. Precisa de olhar para os seus indicadores, perceber a dimensão do atraso e substituir a retórica pelo trabalho competente. Porque o desporto não se desenvolve com bandeiras nas bancadas, discursos emocionados e fotografias de ocasião. Desenvolve-se com método, conhecimento, investimento bem orientado, avaliação pública e responsabilidade política.
Enquanto isso não acontecer, o país continuará a viver esta pequena comédia institucional: último nos indicadores, primeiro nas tribunas; fraco na política pública, forte na pose; pobre na avaliação, rico em representação.

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