Já lá vão uns largos anos. Um professor de filosofia, que julgo não ter estado muito tempo na Escola Secundária de Porto de Mós, um dia revelou à minha turma que quando via futebol na televisão tirava-lhe o som e punha a tocar um disco de música clássica. Avisou logo que, até se experimentar, poderia parecer uma coisa estapafúrdia. O primeiro encanto residia em deixar de ouvir as idiotices dos comentadores. Os relatadores da rádio eram coisa diferente. Recorrendo apenas a palavras, desenhavam os movimentos dos jogadores na imaginação de quem os escutava e com metáforas e mudanças na intensidade da voz, coloriam o éter da rádio. Essa era uma arte maior. Agora, ter de ouvir comentadores a explicar-nos as imagens televisivas que estamos a ver, podia aproximar-se perigosamente de uma forma de tortura. Com música clássica de fundo, e mesmo sem que os jogadores tenham consciência disso, o futebol, o jogo do pontapé na bola, podia transformar-se num bailado.
No passado Sábado, enquanto assistia ao jogo Noruega-Inglaterra, depois de me arrepiar ao ouvir uma qualquer inanidade emitida pelos comentadores, lembrei-me do meu professor de filosofia do décimo ano. Baixei o volume da TV até ao zero e procurei uma lista de temas para violoncelo no Spotify.
O que se seguiu, fez-me escrever este postal. Sem entender como é que os movimentos de um arco sobre as cordas de um violoncelo podiam coincidir com os arranques, as simulações, as fintas e as fitas, as quedas, os remates e as defesas dos jogadores, o que é certo é que comecei a chamar quem estava comigo em casa para confirmar se viam o mesmo que eu estava a ver, e a ouvir. O Bellingham empatou ao som da Méditation de Thaïs, de Massenet e, já no prolongamento, confirmou a reviravolta durante a Sicilienne, de Fauré. Estávamos a torcer pela Noruega, o underdog merece sempre uma simpatia especial, mas mesmo quando o árbitro meteu o bedelho no resultado, coisa que não tem faltado neste Mundial, entreolhávamo-nos sorrindo pelo acerto dos artistas. Uns à frente da partitura e os outros de chuteiras a transpirar sobre a relva.
Paulo Sousa,
Do blogue Delito de Opinião
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