O cenário é surreal. Caixotes de papel amontoam-se na periferia da solarenga Lisboa, lá dentro 300 mil exames para serem digitalizados, por trabalhadores braçais, numa plataforma que não acerta a primeira página com a segunda, convoca matemáticos para corrigir exames de línguas, e apaga respostas, fazendo aparecer ao lado dezenas de novas, mal o professor-classificador desliga o ecrã. O Governo diz não tornar pública toda a cadeia de lucro, dos Bancos de investimento, das bigtecs, detentores da memória destes dados, às empresas executoras, mas afirma, à luz do dia, estar a “monitorizar a velocidade” dos classificadores.
Umas de maior importância que outras. Outrora assim acontecia. É por isso que gosto de as relatar para os mais novos saberem o que fizeram os seus antepassados. Conseguiram fazer de uma coutada, uma aldeia, depois uma vila e, hoje uma cidade, que em tempos primórdios se chamou Fredemundus. «(Frieden, Paz) (Munde, Protecção).» Mais tarde Freamunde. "Acarinhem-na. Ela vem dos pedregulhos e das lutas tribais, cansada do percurso e dos homens. Ela vem do tempo para vencer o Tempo."
Rádio Freamunde
https://radiofreamunde.pt/
quinta-feira, 9 de julho de 2026
Vexames Nacionais:
Nem os Monty Python conseguiriam uma palhaçada idêntica. A credibilidade está ferida, é irreversível. Não se questiona – nem da parte da maioria dos sindicatos e partidos – o sentido de fazer-se um exame, a metrificação da avaliação, a – pasme-se – divisão da classificação do exame em itens (um professor não classifica todo o exame, mas cada professor classifica partes, para assim monitorizar a velocidade e dividir parcelas entre os mais rápidos); o facto – pasme-se – de o professor não corrigir, apenas classificar (como um aluno pode aceitar ter uma nota sem que lhe expliquem os erros?) e claro – pame-se – a monitorização, uma forma de controlo digital sobre o próprio corpo – literalmente o corpo docente. Quanto tempo, onde e como ficou cada docente em cada resposta, para assim a IA calcular quanto tempo a máquina em breve precisará para fazer o mesmo. O Governo e a UE fizeram dos nossos professores e filhos – com o dinheiro que destinamos a educação coletiva de qualidade – ratos de laboratório do lucro dos acionistas da IA.
Desvela-se a realidade crua das classes dirigentes – as mesmas classes que colocam os filhos em colégios suíços, onde toda a tecnologia é proibida, e a manhã começa com trinta minutos de silêncio, meditação, seguida da leitura de obras filosóficas clássicas e termina com uma subida à montanha para conhecer a natureza. Uma aparência de algo semelhante, mais mixuruca, há hoje em alguns colégios de elite em Portugal, já que a maioria do privado aderiu também à digitalização.
A IA, nem inteligente nem artificial, tem trabalho humano massivo atrás (na entrega de dados na forma de repostas a exames, na classificação dos mesmos, e na digitalização braçal destes). Tudo pago pelos trabalhadores portugueses, na forma de impostos que deveriam ser destinados a educar os filhos.
Educá-los no melhor conhecimento histórico e filosófico, matemática, física, línguas e literatura, artes.
Nada – apenas testes de cruzes, simplificados, para a IA compreender o comando e a resposta, que é uma resposta padrão para ser processada por algoritmos que operam entre 0 e 1. Alunos a ser treinados para a automação, uma nova era de “desantropormofização”, ou seja, desumanização em massa – a máquina engole o homem.
Portugal, é preciso dizer sem meias palavras, foi o rato de laboratório da IA Europeia ao abrigo do PRR, um empréstimo pago pelos portugueses, anunciado como uma dádiva para combater a crise da Covid, mas de facto empréstimo, com juros, para a transição verde – que o digam em Boticas ou Fundão -, transição digital dos serviço públicos, e investimento em segurança, guerra portanto.
Em resposta à concorrência e guerra de Trump e ao enfrentamento mundial com os outros poderes, China, Rússia, a UE delimitou, no mesmo discurso de Von der Leyan, a guerra e a educação digital. Como um campo único. De aposta do dinheiro público, ao lado do mega financiamento a projectos de painéis solares e eólicas, que destroem o campo agrícola e o acesso a uma alimentação de qualidade.
A pandemia de Covid não serviu para propor o regresso a uma saúde pública coletiva, com gestão democrática e quebra de patentes e investigação – em segurança – sujeita a critérios puramente científicos e clínicos transparentes. A crise foi usada não para parar e pensar, mas avançar com o manicómio digital.
O avanço delirante do “ensino” online, “saúde” online, dos contratos obscuros, até hoje, com farmacêuticas, e do Estado de exceção, da supressão de direitos. O super-homem Deus da máquina, precisa de um super Estado de exceção – até o Papa o percebeu, preocupado que a religião seja suprimida pela nova religião, a IA.
Da crise de Covid a burguesia europeia fez uma oportunidade – impor a IA, que todos odeiam e ninguém quer, segundo todas as sondagens realizadas mais de 60 a 70% da população questiona a IA, os serviços online, a perda de sentido do trabalho, repetitivo. Os estudos da neurobiologia e da psicologia (mesmo da que é dominante, a comportamental), e até os inquéritos da insuspeita OCDE confirmam – quem mais usa a IA menos usa o cérebro, é mais infeliz, tem mais problemas de saúde. Um desastre, um abismo.
Um abandono das crianças e jovens, pelos quais somos responsáveis como adultos, foi feito, com o cumprimento escrupuloso da digitalização – agora os alunos são obrigados a produzir lucro, trabalho infantil, no lugar que um dia sonhou tirá-los do trabalho infantil, a escola. Fazem produção de dados e são -involuntários – dadores de corpo e alma (todo o seu cérebro) à experimentação tecnológica do desemprego, da guerra e da vigilância.
A ligação entre guerra, vigilância, e educação é central, disse a líder da EU. É natural, a precisão da geolocalização, a eficácia dos pompts, tudo isto é fulcral para criar códigos de programação – para a qual são necessários milhões de dados, cujo fornecimento vem da educação e dos serviços que preenchemos online, de sumários a relatórios clínicos.
Há uma nuvem – assente em gigantes centros de dados – que une o like viciante do tiktok (que cria com esse like perfis, influi nos circuitos neurais), une, dizia eu, o like à resposta de pintar bolinhas a uma pergunta, à classificação digital num exame, à explosão de doenças ditas mentais, e à exatidão de um drone a implodir uma criança em Gaza.
Vivemos uma fase nova no capitalismo mundial. Não podemos pensar isto como inovação ou tecnologia, é terror, desagregação, não é inteligente, não é artificial, é material e concreto, somos milhões arrastados para a barbárie. Nunca a resistência política anti capitalista desde a II Guerra foi tão urgente.
Sabendo de antemão que a IA erra, que os erros são inevitáveis e que todos os estudos publicados demonstram que diminui a capacidade cerebral dos utilizadores, a UE parece ter escolhido um país, periférico, para o mega ensaio de digitalização de 300 mil exames. Partiu das redes sociais e de professores e intelectuais públicos – e não dos media do Estado ou empresariais – a avalanche de testemunhos de professores, com o Ministro a negar os erros clamorosos dos exames. Quando a situação se tornou impossível de esconder, a comunicação política encontrou o seu spin – o “problema foi ser feito à pressa”, “não testaram antes”, é preciso “responsabilidades”, “comissões de inquérito”. Estas declarações demonstram a distância com a realidade das escolas. Para milhares de professores, que tornaram pública a sua opinião, não se trata de fazer bem a digitalização, mas parar este delírio, não se trata de fazer exames, mas de reconstruir o sentido da educação. A crise da IA desvelou a crise sistémica da escola, esmagada entre as pedagogias pós-modernas e o neoliberalismo tecnocrático.
“Fazer depressa é fazer pior”, “não vamos outra vez falar de burocracia e técnica, escondendo a questão de fundo – descritores simples, comandos de resposta padronizados”, que medem o hiperfoco e não o desenvolvimento do cérebro e do conhecimento, “PIDE digital”, “inacreditável”, “temos que fazer greve”, “não somos entregadores”, “as perguntas eram tão imbecis que continham a resposta”, “os exames não avaliam”, “estou exausta”.
O que é a escola? O lugar coletivo de ensino-aprendizagem do melhor conhecimento produzido pelo conjunto da humanidade, sintetizado num currículo. Há algo nosso, que junta mortos e vivos, e que Marx denominava “intelecto geral”. Quando os meus alunos sabem mais, eu aprendi mais, e a humanidade aprendeu mais, quando os meus alunos usam IA cada um de nós fez o conjunto da humanidade retroceder.
A educação não é um acto de entrega de um produto de ou a um jovem ou criança, é uma transformação interna, um desenvolvimento do cérebro (das funções psíquicas superiores). Por isso o lugar central da escola não é ocupar o tempo das crianças e jovens, enquanto os pais estão a trabalhar. É sim o espaço do ensino dos conceitos teóricos de cada curriculum (os fundamentos do conhecimento). A IA generativa é uma recombinação estatística de palavras com um código, que ao mesmo tempo é feita de expropriação do saber acumulado (milhões de dados, textos, respostas) e simultaneamente expropria o saber possível – ao substituir o lento, esforçado, reflexivo processo de conhecimento e de desenvolvimento do cérebro por comandos mecânicos e desprovidos de complexidade. É uma máquina que expropria continuamente o ensino-aprendizagem.
A IA não é “mais uma ferramenta” que nós “podemos usar como queremos”. Mesmo que fosse pública, com um código aberto – que deve ser -, nunca deveria ser usada em momento algum na educação, na escola, na Universidade, mas sim e apenas por exemplo a limpar WCs ou salvar alguém no mar. A escola e universidade são um atelier de ensino, não são uma fábrica de comandos.
Raquel Varela, Jornal Maio.
A magnífica ilustração que acompanha o artigo é da equipa de ilustração do Maio. Neste número podem ler também o artigo do economista Michael Roberts sobre como cresceu o complexo militar industrial português, à boleia dos apoios do Governo com orçamento público (aumentou 3800 milhões de euros para a guerra num ano) e os lucros que dá a quantas empresas; a relação entre guerra e tecnologia na Universidade portuguesa; e - uma boa notícia - o retrato da luta vitoriosa dos albaneses contra a privatização das praias do país, pela mão do jornalista albanês Manolis Sera. Em jornalmaio.org
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Sem comentários:
Enviar um comentário