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domingo, 28 de junho de 2026

GUERRA COM POUCAS ARMAS E DEMASIADOS INTERESSES ESTRATÉGICOS:

Há guerras que se compreendem pelas batalhas. Outras apenas se entendem quando se olha para tudo aquilo que aconteceu antes do primeiro disparo e para todos os interesses que se esconderam por detrás dele. A guerra na Ucrânia pertence claramente à segunda categoria.

Quatro anos e quatro meses depois do início do conflito, continua a existir uma tendência para resumir a guerra a uma narrativa simples: a Rússia pretendia conquistar rapidamente a Ucrânia, falhou e ficou presa num impasse. Mas a História raramente se deixa explicar por frases curtas ou por análises construídas apenas sobre uma parte dos factos.
Desde logo, permanece uma pergunta que continua sem resposta convincente: se Moscovo pretendia ocupar um dos maiores países da Europa, porque iniciou a operação com um contingente militar manifestamente insuficiente para esse objetivo? Os efetivos colocados em campo estavam muito longe daqueles que a própria doutrina militar considera necessários para controlar um território daquela dimensão. Este dado, por si só, deveria obrigar qualquer analista sério a admitir que existiam outras hipóteses estratégicas além da simples conquista militar.
Nas primeiras semanas, enquanto as colunas russas avançavam em várias direções, desenrolavam-se igualmente negociações que muitos julgavam poder conduzir a uma solução política. As conversações realizadas na Turquia chegaram a criar a expectativa de um entendimento baseado na neutralidade da Ucrânia e em garantias internacionais de segurança. Esse caminho acabou por ser abandonado e, desde então, multiplicaram-se os testemunhos de responsáveis internacionais que apontam para pressões externas no sentido da continuação da guerra. Independentemente da interpretação que cada um faça desses acontecimentos, ignorá-los é amputar uma parte importante da cronologia deste conflito.
Entretanto, a guerra deixou de ser apenas uma guerra entre Rússia e Ucrânia.
O apoio ocidental transformou profundamente o equilíbrio estratégico. Não se tratou apenas do envio de armamento, mas também de inteligência em tempo real, formação, financiamento, comunicações, vigilância por satélite, logística e planeamento operacional. A Ucrânia passou a beneficiar de um dos maiores esforços internacionais de apoio militar e tecnológico desde a Segunda Guerra Mundial. Sem esse apoio continuado, dificilmente teria conseguido manter um conflito desta dimensão durante mais de quatro anos.
Também a Rússia teve de se reinventar. O que inicialmente revelou falhas logísticas, dificuldades de coordenação e alguma rigidez doutrinária acabou por evoluir para uma máquina militar muito diferente. A indústria de defesa aumentou significativamente a produção, foram recrutadas sucessivas vagas de militares contratados e a economia foi progressivamente adaptada às exigências de uma guerra prolongada. O exército russo de 2026 pouco se assemelha ao que atravessou a fronteira em fevereiro de 2022.
Pelo meio surgiu outro protagonista inesperado: o drone.
Talvez nenhuma tecnologia tenha alterado tanto a forma de combater desde a generalização dos mísseis guiados. Pequenos aparelhos relativamente baratos passaram a destruir blindados de milhões, a substituir missões de reconhecimento, a corrigir fogo de artilharia, a vigiar linhas da frente e até a penetrar centenas de quilómetros em profundidade. A "Ucrânia" - através dos seus apoios ocidentais - compreendeu mais cedo essa revolução. A Rússia demorou algum tempo a adaptar-se, mas acabou igualmente por integrar essa nova realidade, desenvolvendo sistemas próprios, guerra eletrónica e produção em larga escala. A guerra tornou-se um gigantesco laboratório da guerra do século XXI.
Há ainda outro aspeto frequentemente esquecido. Grande parte dos combates ocorreu em regiões densamente povoadas por populações russófonas ou pró-russas, enquanto muitas posições defensivas ucranianas se concentraram em zonas urbanas. Qualquer avanço significava inevitavelmente elevados riscos para civis e uma enorme destruição das cidades. Esta realidade contribuiu para transformar operações que poderiam durar dias em campanhas de meses ou mesmo de anos.
Entretanto, o conflito deixou de ser apenas uma disputa territorial.
Hoje confrontam-se duas visões da arquitetura de segurança europeia, dois modelos de ordem internacional e interesses estratégicos que ultrapassam largamente as fronteiras da Ucrânia. Para Moscovo, está em causa impedir o avanço da NATO até às suas fronteiras. Para os países ocidentais, está em causa evitar que uma alteração de fronteiras pela força se torne um precedente internacional. Entre estes dois objetivos permanece um povo que paga diariamente o preço da guerra.
É precisamente por isso que esta não pode ser analisada apenas pela velocidade dos avanços militares ou pelos quilómetros conquistados. Uma guerra desta natureza mede-se também pela capacidade industrial, pela resistência económica, pela adaptação tecnológica, pela sustentabilidade política e pela vontade das sociedades envolvidas.
Hoje, quatro anos e quatro meses depois, começa a instalar-se a sensação de que o conflito entrou numa nova etapa. Os erros iniciais foram sendo corrigidos. As ilusões desapareceram. Os improvisos deram lugar a estruturas militares muito mais adaptadas. Ambos os lados aprenderam com derrotas e sucessos. As reservas humanas, industriais e financeiras passaram a pesar tanto quanto os movimentos das tropas no terreno.
Tudo indica que os próximos meses poderão representar uma fase decisiva. Não necessariamente porque uma nova ofensiva resolverá a guerra de forma imediata, mas porque a capacidade de cada lado para sustentar o esforço militar poderá começar a definir os contornos da solução política que, inevitavelmente, acabará por surgir.
Talvez seja esse o maior ensinamento desta guerra: raramente os conflitos terminam exatamente como começaram. Os objetivos alteram-se, as estratégias transformam-se, as alianças evoluem e as certezas desaparecem. O que parecia uma operação de poucas semanas tornou-se uma guerra que já mudou a geopolítica mundial, a economia europeia, a indústria militar e até a própria forma de combater.
Resta saber se estamos finalmente perante o princípio do fim ou apenas perante o fim do princípio. Porque, em guerras onde existem novos sistemas de armas e são tantos os interesses estratégicos e geopoliticos, a vitória não pertence apenas a quem conquista território. Pertence, sobretudo, a quem conseguir impor a paz nos seus próprios termos.

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