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domingo, 7 de junho de 2026

A CARTA-RESPOSTA QUE PUTIN NÃO ESCREVEU A ZELENSKYI - MAS PODIA TER ESCRITO:

A carta aberta publicada por Zelenskyi dirigida a Putin e apresentada como um apelo à paz, à negociação e ao fim da guerra, contém simultaneamente uma sucessão de argumentos destinados a demonstrar ao destinatário que está isolado, enfraquecido, dependente, envelhecido, derrotado e condenado pela História.
Ao lê-la, ocorreu-me um exercício simples. E se Putin respondesse? Não uma resposta real mas uma resposta imaginária construída a partir das contradições presentes na carta de Zelenskyi. Porque, por vezes, a melhor forma de compreender um discurso político é imaginar a resposta que o seu adversário escreveria.
E foi assim que imaginei a resposta possível de Putin:
"Carta Aberta a Zelenskyi
Ao presidente - sem eleições há dois anos - de um Estado-Nação mantido pelas nações ocidentais.
Excelentíssimo,
Li a sua carta. Li-a duas vezes. A primeira como documento político. A segunda como peça literária.
Na primeira leitura encontrei um apelo à paz. Na segunda encontrei um pedido de continuação da guerra. Confesso que ainda não consegui reconciliar as duas versões. O senhor escreve que não quer uma guerra permanente. Mas dedica boa parte da carta a explicar porque a guerra deve continuar.
Escreve que quer negociar. Mas dedica dezenas de parágrafos a demonstrar porque o seu interlocutor é incapaz de negociar.
Escreve que propõe um cessar-fogo. Mas simultaneamente celebra ataques cada vez mais profundos em território russo.
Escreve que pretende uma nova arquitetura de segurança. Mas essa arquitetura parece já vir desenhada, financiada e alinhada antes mesmo das negociações começarem.
Não é uma crítica. É apenas uma observação de um presidente legitimo. Numa negociação normalmente evita-se começar a conversa explicando ao outro lado que está velho, isolado, derrotado, dependente da China, salvo pela Coreia do Norte, abandonado pelos seus próprios apoiantes e condenado pela História. Porque, se tudo isso fosse verdade ao ponto que descreve, não seria necessária uma negociação. Bastaria esperar.
Mas a própria existência da sua carta sugere precisamente o contrário. Sugere que a guerra continua suficientemente equilibrada para justificar uma proposta política. Essa é a primeira contradição do libreto.
A segunda encontra-se na Europa. O senhor escreve que a Europa deve participar. Concordo. Mas qual Europa? A Europa que promete apoiar a Ucrânia "durante o tempo que for necessário"? Ou a Europa que simultaneamente enfrenta fadiga económica, crise industrial, dificuldades energéticas e divisões internas crescentes? A Europa dos comunicados ou a Europa das eleições? A Europa das cimeiras ou a Europa dos contribuintes?
São personagens diferentes. E nem sempre cantam na mesma tonalidade. Quanto aos Estados Unidos, a situação é ainda mais curiosa. A carta apresenta Washington como garante indispensável da paz. Ao mesmo tempo, admite que Washington está cada vez mais ocupado noutros palcos. O que levanta uma questão simples: se os Estados Unidos forem indispensáveis para acabar a guerra, o que acontece quando deixam de considerar esta guerra indispensável? É uma pergunta que nem Kiev nem Bruxelas parecem gostar de ouvir. Mas a História raramente pede autorização antes de fazer perguntas difíceis.
O senhor afirma que a Rússia depende da China. Possivelmente. Mas também é verdade que a Ucrânia depende do Ocidente. Ambas as partes apresentam a dependência do adversário como fraqueza e a própria dependência como virtude estratégica. É uma das árias mais antigas da geopolítica. Cada lado chama "aliança" à sua dependência e "submissão" à dependência do outro. O público já conhece a melodia.
O senhor fala de justiça. O Kremlin fala de segurança. A NATO fala de estabilidade. A União Europeia fala de valores. Os mercados falam de preços. Os soldados falam de sobrevivência. As famílias falam dos mortos. Talvez o problema seja precisamente esse. Todos falam idiomas diferentes enquanto fingem participar da mesma conversa.
No final da sua carta existe uma frase particularmente interessante: "Podemos trabalhar para alcançar essa solução."
Talvez seja a frase mais sincera de todo o documento. Porque ela reconhece algo que quase ninguém admite publicamente. Esta guerra deixou há muito de ser apenas uma disputa por territórios. Transformou-se numa disputa sobre quem se cansará primeiro. A Rússia. A Ucrânia. A Europa. Os Estados Unidos. Ou a própria realidade.
Entretanto, os cemitérios continuam a crescer mais rapidamente do que as soluções. Eis a tragédia escondida dentro desta guerra que já parece uma ópera bufa. Todos os protagonistas afirmam lutar para alcançar a paz. Mas quase todos os incentivos políticos atuais recompensam a continuação da guerra. E assim a guerra avança. Ato após ato. Sanção após sanção. Mobilização após mobilização. Cimeira após cimeira. Declaração após declaração.
Até que um dia os historiadores descubram aquilo que os contemporâneos se recusavam a admitir: que havia demasiados atores a tentar vencer a guerra e demasiado poucos a tentar terminar a peça. Com respeito por todos os mortos. E com crescente perplexidade perante todos os vivos.
Esta carta será publicada nos órgãos de comunicação social que quiserem recebê-la e ser-lhe-á enviada no próximo drone, em direção a Kiev e sem ogiva explosiva".
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João Gomes  

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