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quinta-feira, 14 de maio de 2026

Restaurar o serviço militar obrigatório? Jovem de 18 anos responde a Pacheco Pereira.:

"Assistimos há dias à publicação de um artigo de opinião um quanto triste no Público, da autoria do historiador Pacheco Pereira, em que ele defende a importância de restaurar o serviço militar obrigatório em Portugal face à crescente agressão da Rússia na frente ucraniana.
Pacheco Pereira começa por argumentar que, nas circunstâncias presentes em território europeu, a invasão da Ucrânia coloca às democracias europeias uma discussão importante sobre militarização. Porém, o nosso historiador parece não ter conseguido expressar qual era a sua preocupação quanto à guerra: receia que a guerra se expanda para os países da União Europeia? Será medo de que a frente de batalha passe de Kiev para a Berlim? Para Lisboa? Será a Rússia uma ameaça às democracias europeias?
O serviço militar obrigatório em Portugal não parece responder a nenhum destes problemas. Será importante mencionar que a expansão da guerra para o resto da Europa é um cenário altamente improvável. Mesmo que fosse provável, números publicados indicam que os países da UE possuem meios armados suficientes, tanto em número de efetivos como em gastos militares, para fazer frente ao exército russo. Não há um cenário de vitória para a Rússia numa guerra contra os países europeus. E ninguém sabe porque quereria a Rússia invadir o resto da Europa. Pacheco Pereira também parece ter uma preocupação um quanto cínica no que toca à democracia na Europa. Para ele, o desinvestimento na saúde e na educação, a pior crise da habitação na UE, o ataque aos direitos laborais e a omissão dos financiadores dos partidos parece que são algo com que a “nossa democracia” consegue conviver: não parecem preencher requisitos de “maior ataque à democracia”.
É-nos, também, apresentado um argumento histórico um quanto falacioso para justificar mandar os nossos jovens para a tropa: de que vivemos num continente que «é e sempre foi um continente de guerra». Eu, de facto, assim como os meus colegas do liceu Camões e de todo o secundário, acho que dormiria muito mais descansadamente, sabendo que não pertenço à primeira geração de jovens que morrerão nas trincheiras da Europa antes de ter casa própria. Em vez de usar a história para normalizar a matança e a barbárie, podíamos usá-la para entendermos como elas são indesejadas.
Infelizmente a preocupação com a democracia não é o único cinismo em que Pacheco Pereira incorre: o seu texto de opinião foi publicado no dia 9 de Maio (dia da vitória contra o nazismo!), parecendo revestir-se de uma estética de sacrifício, como se os países europeus tivessem perante si uma escolha difícil: sacrificarem a sua querida juventude numa guerra por liberdade e independência ou serem subjugados perante a Federação Russa.
Ora, os países europeus parecem ter uma só vontade de momento: a de investir numa renovada indústria armamentista e depois fazer uso dela; afinal de contas as balas e os tanques produzidos começam por ser investimento lucrativo. O interesse pela guerra por parte da grande indústria traz consigo um senão: os jovens (menos os filhos de quem manda) vão para a guerra para nela morrerem pelo lucro e o interesse de um punhado de gente muito rica. Não é uma escolha difícil, porque quem tem o poder para a mandar fazer ganha muito com a guerra.
É importante reiterar que os jovens não querem ser mandados para uma guerra para morrer em nome daqueles que já lhes roubam o futuro em tempo de paz. Por toda a Europa, no passado dia 8 de maio, estudantes protestaram contra o aumento do militarismo com o mote «os governos querem guerra, nós queremos um futuro», reiterando a ideia de que existe uma razão pela qual «não é popular defender o serviço militar obrigatório»: é porque restaurar o SMO não é para servir o povo." José Duarte, estudante.

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