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sexta-feira, 8 de maio de 2026

André Ventura e o pacto com os polícias criminosos Caro leitor, cara leitora:

Quando se pensa que Ventura não pode ter discursos ainda mais abjectos do que já teve, ele consegue.
No dia em que se soube que o Ministério Público deteve 15 agentes da PSP, dois dos quais chefes, com acusações de tortura, violação e ofensas à integridade física qualificadas de cidadãos vulneráveis, Ventura convocou uma conferência de imprensa para anunciar um debate parlamentar para "apoiar a polícia", atacando o ministro da Administração Interna.
Ventura não tem a coragem absoluta de defender os polícias acusados de tortura e violação. Diz que "tal como em todas as profissões há comportamentos desviantes". Mas esta declaração é uma repugnante desvalorização dos crimes nas esquadras do Rato e do Bairro Alto. Naquele preciso dia, o líder do Chega quis visar o Ministro da Administração Interna com alegações absurdas de que Luís Neves "fazia gala" de "acções contra a polícia".
Não sabemos se os acusados de tortura e violação fazem parte do contingente do Chega nas polícias. Mas sabemos sempre que quando um polícia é criminoso, Ventura defende o criminoso. Toda a conversa da marcação do debate parlamentar serve para atacar Luís Neves, o melhor ministro deste Governo e um azar para Ventura. Ter um polícia no Ministério da Administração Interna deve confundi-lo e confundir a sua estratégia.
A defesa dos criminosos das esquadras do Rato e do Bairro Alto é feita por André Ventura quando diz que o ministro não devia falar tanto nos "comportamentos desviantes".
Sim, sabemos que se Ventura fosse ministro da Administração Interna, ou se o Chega chegasse um dia ao Governo, a polícia poderia atirar a matar (como já defendeu um seu deputado) e toda a tortura seria possível nas esquadras.
"Um ministro que devia representar a autoridade do Estado escolhe o comportamento desviante dessas forças da autoridade do Estado e dos polícias em vez de valorizar a insegurança que se vive todos os dias nas nossas ruas", disse Ventura, nessa conferência de imprensa convocada no dia da operação policial contra os polícias suspeitos de tortura.
A abjecção de Ventura fica explícita no inverso daquilo que acusa o ministro da Administração Interna: no dia em que se fica a saber que se pode torturar e violar pessoas em esquadras que representam a autoridade do Estado, Ventura desvaloriza o assunto e escolhe outro: a alegada insegurança.
Era da alegada insegurança nas ruas, segundo o líder do Chega, que o ministro devia falar. E não dos "comportamentos desviantes". A defesa dos polícias detidos já não é implícita, mas explícita.
Ventura acusa o ministro de "escolher a narrativa dos polícias malcomportados". Veja-se a diminuição do grau da violência conhecida que a utilização do termo "malcomportados" encerra. O líder do Chega insurge-se contra o anúncio da expulsão de agentes que cometeram crimes. Não contra os crimes.
Ventura não se preocupa com a criminalidade desde que os autores sejam polícias. Desvaloriza, não quer saber, escolhe a narrativa de que os polícias são vítimas, todos, incluindo os torturadores. É o discurso de todas as ditaduras sobre as suas polícias políticas: estão a defender um "bem maior", que é sempre "a segurança nacional".
A defesa da violência policial está no ADN do Chega. Na altura da morte de Odair Moniz por um polícia, que está neste momento em julgamento, um agora deputado do Chega regozijou-se com a morte do cidadão: "Menos um eleitor do Bloco de Esquerda", escreveu o então assessor do Chega nas redes sociais. Depois disto, foi promovido a deputado da nação.
A implícita defesa dos polícias torturadores dá votos ao Chega? As forças policiais que cumprem a lei gostarão de se ver abandalhadas desta forma por Ventura, ao misturar tudo, e irão a correr votar no Chega?
Tenho sinceras dúvidas de que polícias honestos queiram ser misturados com polícias torturadores. Ventura pode ter chegado a uma altura em que começa a ficar esgotado.
Ana Sá Lopes no Público

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