Manhã de dezassete
de Abril de mil novecentos e setenta e um, de sol quente, daquelas manhãs que
apetecia ir à praia. Estou no barco Vera Cruz contemplando as pessoas ao longe
a acenar-nos com os lenços em sinal de despedida.
Antes fizemos um desfile e uma parada militar
onde não faltou o discurso de partida, de boa sorte, a entrega de aerogramas
que as senhoras do Movimento Nacional Feminino nos ofereceram.
O canudo do Vera
Cruz dá o sinal de partida com três toques impressionantes. Os lenços agitam-se
com rapidez. Ouvem-se gritos e choros de familiares de soldados. Ainda bem que
ali não tenho ninguém. Se já é custosa a partida, mais seria, se tivesse ali algum
familiar.
Deviam de ir no
Vera Cruz uns dois mil soldados. O nosso destino era Angola. Quando já não
avistávamos mais ninguém fomos chamados para nos ser distribuído os nossos
aposentos. A mim calhou-me no porão. Nunca percebi como fui lá parar. Era dos
soldados com mais tempo de serviço e talvez dos mais velhos do batalhão.
Quando fui
mobilizado estava a cumprir serviço militar no C.I.C.A. 1, à beira do Palácio
de Cristal. Hoje faz parte do hospital S. António. A maioria dos soldados era
do quarto turno de setenta. Eu do terceiro.
Fui para o campo de
treino militar de Santa Margarida, para incorporar a companhia 3341, do
batalhão 3838. As companhias CCS, 3340 e 3342, também faziam parte do mesmo
batalhão.
Era um estranho. A
maioria dos soldados foram do R.I.2 de Abrantes. Eram conhecidos dos sargentos
e oficiais, só por isso compreendi a minha ida para o porão.
Na ida e volta para
o porão, passava-se perto da cozinha e do depósito de géneros. Era um cheiro
insuportável. Por esse motivo saía de manhã e só regressava quando ia dormir.
O barco Vera Cruz
era imponente. Estava um pouco abandonado. Outrora um barco de transportar
turistas. Agora servia para transportar carne para canhão.
À medida que nos
íamos distanciando avistávamos coisas que nunca tinha visto – golfinhos,
baleias e peixe voadores.
Todos os dias os
meus colegas deitavam carga ao mar. Eu felizmente nunca enjoei. Alguns
punham-se em tronco nu a apanhar sol, ganharam bolhas de água nas costas e não
conseguiam dormir.
À noite não
tínhamos nenhum passatempo a não ser jogar à batota. Uma noite vi soldados
sentados no chão do corredor a jogar à lerpa, não conhecia nenhum. Pedi
autorização para jogar. Autorizaram.
O jogo começou-me a
correr bem. A certa altura havia muito dinheiro em jogo, vários soldados
lerparam. Foram dadas cartas para nova jogada, três soldados disseram que iam
ao jogo e puseram a respectiva quantia, era o quarto a receber cartas e quando
as recebi tinha lerpa real. Mostrei as cartas e quando me preparava para
arrecadar o dinheiro foi-me dito para não lhe mexer. Disseram que não tinha
nada que mostrar as cartas. Devia deixar correr o jogo para outros lerparem.
Argumentei que era assim que procedíamos na minha terra e quando olho para o
lado estava o Matosinhos. Era bem constituído fisicamente. Soldado condutor
auto-rodas, da minha companhia, que me deu um sinal para pegar no dinheiro.
Eram três mil escudos, assim fiz. Ninguém repostou, sabiam que eu tinha razão.
Passado pouco tempo acabou o jogo.
No total ganhei
quase quatro mil escudos. Em mil novecentos e setenta e um, era muito dinheiro.
Dei uns trocos ao Matosinhos. Passados uns dias uns colegas meus foram
apanhados a jogar à batota e foram castigados com uma carecada. Tive receio de
me acontecer o mesmo. Acabei por não mais jogar.
A viagem decorria
bem, aproximávamos de Luanda.
Manuel Pacheco
Sem comentários:
Enviar um comentário