Rádio Freamunde

https://radiofreamunde.pt/

domingo, 22 de março de 2026

Não vos contei da aula mais bela que dei:

É urgente o amor. Fui aos Gambozinos, no Porto, dar uma aula de história. Será que sou capaz, pensei, afinal eles têm 5, 6 anos, o mais velho 10 anos. O programa era ensinar-lhes o que era a história. E para que serve? Mal entrei, quase todas as crianças, desde os 2 anos de idade, correram para mim, para me abraçar. Fui apanhando uma a uma, para as apertar junto do peito, beijá-las na face, apertar bochechas, e ouvi-las soletrar palavras inventadas. Que lugar é este onde as crianças recebem quem entra de braços abertos? É a escola Gamzobinos, aqui educa-se pela arte, e com amor, as crianças todos os dias despedem-se da escola cantando a música dos abraços do Sérgio Godinho, abraçando-se entre eles e aos adultos.
Recordei alunos professores meus que me disseram que os seus alunos querem abraçá-los, ser tocados, mas tal coisa desapareceu da escola onde não há corpo, apenas ecrãs, distância, corpo é tabu, e todo o toque pode ser interpretado como abuso - é o espírito fascista, para quem todo o toque é perversão, a entrar no senso comum. E todo o desejo não está no conhecer o outro, no conhecer o conhecimento, no encontro, mas na dopamina libertada pela compulsão dos ecrãs, onde estão sozinhos. Milhões de seres humanos sós nas redes "sociais". Que triste, professores e alunos que não se abraçam. Um professora, colega e aluna, disse-me um dia deste "os nossos alunos são vulcões de emoções presas porque não conhecem sequer as palavras para as expressar". Nem têm com quem o fazer, acrescento eu.
Claro que há quem resista, há quem continue a abraçar os seus alunos, e ensinar conhecimento (em vez de IA e "competências") lembro-me de uma turma minha em que, na última aula, depois de fazermos o balanço final - sem anonimato, face a face - um deles me pediu para me abraçar e vários colocaram-se na fila. Fiquei sem palavras, voltei para casa, à noite, fresca - trabalhamos muito mas a exaustão vem da falta de desejo, de prazer no trabalho, que é alienado, sem sentido, sem desejo, os gestores fizeram com que as pessoas queiram fugir do trabalho. Bem, no Gambonizos há abraçar, confiar, deseja-se ir trabalhar, dar é o padrão.
O espaço, uma velha clássica casa do Porto, está forrado com memórias, entre elas todas as fotografias de todas as crianças que por ali passaram, mas também por pinturas, por clássicos, como o tempo em que foram o coro do José Mário Branco.
Comemos ali, a comida é feita por uma senhora, cada um vai à cozinha, servimo-nos, rimos, agradecemos. Não há qualquer vestígio de mercado ou empresa aqui. Os miúdos correm e brincam, sujos, não há qualquer ecrã, projector, power point. Só vida. A certa altura todos os entre os 5 os 10, sem que eu tenha sequer escutado uma ordem, dirigem-se às estantes de livros e pegam num, num caderno de pintura, no tabuleiro de xadrez (todos aprendem), e sentam-se, sozinhos, em silêncio, durante uma hora.É a hora do ermita. Durante essa hora têm que estar consigo próprios. Ao vivo a educação de uma função psíquica superior - a atenção volitiva (concentração). Tudo ao contrário do multitask e da captura de atenção digital. Era vê-los, pelo sobrado, uns deitados no chão a pensar em silêncio, outros a jogar xadrez, em silêncio, outros a ler, outros a escrever um diário.
Tomámos um café, na porta, fumou quem fuma, conversámos. Os bebés tinham ido dormir.
Estava a chegar a minha hora. Tinha levado pinturas, jornais, documentos. Para lhes explicar a história, o que fazemos, como fazemos, durante mais de uma hora cerca de 10 ou 15 crianças estiveram espantados - sim, espantados - de olhos esbugalhados, sobrolho de interrogação, a conversar comigo sobre o que á a história. Tinham com os professores preparado as perguntas, um dia antes, e claro - "não se faz perguntas só para ouvir a nossa voz, faz-se se são importantes", aprenderam ; bom, só fizeram perguntas saborosas, e mais, quando fiquei embasbacada sem conseguir responder a uma menina de uns 6 ou 7 anos o que era um átomo, como explicar (estava no centro de uma pintura de Rivera dos anos 1930 que tinha levado) ela respondeu com uma precisão espantosa "é uma partícula pequenina que faz parte de tudo o que há no mundo". Agradeci-lhe muito a ajuda. No fim também ela me abraçou e disse-me só ao ouvido "quem me dera que fosses minha professora de história". Que me dera ser tua professora.
Sim, eu seria feliz a dar aulas numa escola assim, onde claro não há sumários online, relatórios, sequer manuais padronizados e folhas de excel. Os professores que não lutam e aceitam isto nem sabem que quando fazem tudo isto estão a ficar doentes, porque estão a violar o seu dever deontológico - são professores, não são trabalhadores de call center, dados e vigilância...
O Ministro da Educação, Fernando Alexandre, disse esta terça-feira "que a reforma do sistema educativo, que está a ser levada a cabo até ao final do próximo ano, vai torná-lo “irreconhecível” com a aplicação de inteligência artificial (IA). Explicou que “vai levar a uma revisão dos currículos”.
A escola pública e privada, na sua maioria, tornou-se um espaço sem vida. Onde não há ensino, conhecimento, sequer há afectos. Os miúdos e jovens, os professores que não resistem, estão doentes, sem amor, sem saber, sem encantamento, sem desejo. Nós, professores, podemos mudar isto. Podemos fazer um Gambozinos brilhar em todo o país. Para isso precisamos de saber que há um nós e um eles, precisamos de lutar, se não vivemos em luto, uma morte em vida. Nós, professores, crianças, jovens e pais, de um lado, e um eles, o Ministro, o Governo, as bigtecs, a guerra, a IA e a escola como depósito de infelizes, do outro.
Os Gamzobinos são criaturas mágicas de um futuro porvir, em cada partícula do mundo amor, saber, e por isso igualdade, fraternidade e liberdade.
Raquel Varela

Sem comentários:

Enviar um comentário