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quinta-feira, 5 de março de 2026

NÃO É VEGETARIANO – MAS É UM DOS MAIORES OPORTUNISTAS DA POLÍTICA:

Há percursos políticos que se fazem em linha reta, com convicções sólidas que atravessam décadas. E há outros que serpenteiam. O de José Manuel Durão Barroso pertence claramente à segunda categoria.

O jovem que emergiu politicamente nas ruas agitadas que se seguiram à Revolução dos Cravos não parecia destinado a tornar-se um dos mais disciplinados representantes do establishment europeu. Militante ativo do radical MRPP - um movimento maoísta conhecido pela sua retórica incendiária e pelo ativismo de confronto - Barroso participava num ambiente político onde a revolução era palavra de ordem e a rua era palco permanente.
Foi um período em que cartazes, megafones e manifestações definiam o ritmo da política portuguesa. Entre protestos contra a ditadura espanhola de Francisco Franco e ações simbólicas que marcaram a época - como a contestação à Embaixada de Espanha em Lisboa - o jovem militante fazia parte de um ambiente de radicalismo político que, visto hoje, parece quase irreconhecível no currículo do futuro presidente da Comissão Europeia.
Mas a história política portuguesa tem muitas metamorfoses. E poucas foram tão completas como a de Durão Barroso.
Quando o fervor revolucionário começou a arrefecer e o sistema democrático estabilizou, Barroso mudou de rumo. O militante maoísta desapareceu gradualmente para dar lugar ao político institucional que ascendeu dentro do Partido Social Democrata. Não foi uma transição discreta: foi uma verdadeira travessia ideológica, da extrema-esquerda revolucionária para o centro-direita liberal e atlanticista.
Daí em diante a ascensão foi metódica. Ministro dos Negócios Estrangeiros, líder partidário e finalmente primeiro-ministro de Portugal. A imagem do antigo agitador revolucionário deu lugar à de diplomata pragmático, perfeitamente integrado nas estruturas da NATO e da União Europeia.
O momento mais emblemático desse percurso talvez tenha ocorrido em 2003, quando Barroso acolheu na base das Lajes a célebre Cimeira dos Açores de 2003. À mesa estavam George W. Bush, Tony Blair e José María Aznar. Poucos dias depois começaria a Invasão do Iraque em 2003, justificada pela alegada existência de armas de destruição maciça que mais tarde se revelariam inexistentes. Portugal não foi protagonista militar, mas foi anfitrião político. E esse gesto teve um peso simbólico enorme: o pequeno país atlântico surgia como aliado fiel da estratégia norte-americana.
O percurso de Barroso parecia confirmar uma regra antiga da política internacional: sobreviver exige adaptação. Depois da passagem pelo poder em Lisboa, a carreira continuou em Bruxelas. Durante dez anos, Barroso presidiu à Comissão Europeia, consolidando uma imagem de gestor político capaz de navegar entre governos, interesses e crises. Mas nem essa etapa seria o ponto final da viagem.
Quando deixou Bruxelas, Barroso aceitou um cargo no poderoso banco de investimento Goldman Sachs. A decisão gerou críticas intensas na Europa, sobretudo por ocorrer poucos anos após a crise financeira global. Para muitos observadores, simbolizava uma porta giratória entre política e finança que alimenta a desconfiança pública em relação às elites.
Hoje, já fora de cargos institucionais, Barroso continua a intervir no debate público. Ontem criticou a posição espanhola de limitar o uso das suas bases militares por forças dos Estados Unidos, afirmando que um país europeu não pode ser “a única vegetariana num mundo que come carne”. A metáfora é curiosa. Mas talvez revele algo mais profundo sobre a própria trajetória de quem a pronuncia.
Porque, olhando para trás, o percurso de Durão Barroso parece menos uma linha ideológica coerente e mais uma sucessão de adaptações ao clima político dominante de cada época. Do radicalismo maoísta à diplomacia atlântica, do poder governamental à alta finança global, poucas figuras portuguesas ilustram tão bem a capacidade de sobreviver - e prosperar - em ambientes políticos radicalmente diferentes.
Há quem chame a isso pragmatismo. Outros preferem uma palavra mais antiga da política: oportunismo. Mas uma coisa é certa: na grande mesa do poder internacional, Durão Barroso nunca quis ser vegetariano e, hoje, come toda a carne que lhe derem. Come enquanto não for comido, porque na realidade - como outros - se serve desta sociedade distraída para ter sempre o melhor prato na frente!

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