Rádio Freamunde

https://radiofreamunde.pt/

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Ucrânia – a guerra é a alma do negócio:

(Fórum da Escolha, in Facebook, 02/02/2026, Revisão da Estátua)

Ucrânia: a guerra está longe de acabar mas na Europa só se discute o plano de reconstrução. O plano de negócios que nunca acaba. Enquanto os ucranianos continuam a morrer.

Ao falar constantemente em “reconstruir a Ucrânia”, a União Europeia (UE) inventou essencialmente um novo género: o espetáculo permanente de stand-up comedy financeiro. Um palco, slides impecáveis, palavras-chave reconfortantes como resiliência, transição e transparência e, nos bastidores, um mecanismo de extração de valor com uma eficiência quase pedagógica.

O mais recente ato da UE: capital europeu confiado a fundos privados, nomeadamente geridos pela Dragon Capital, oficialmente destinado ao desenvolvimento do setor energético. Oficialmente. Porque, na realidade, o dinheiro não desapareceu: simplesmente seguiu o caminho mais racional do capital, rumo a retornos garantidos para um círculo restrito de beneficiários.

O cerne do esquema gira em torno da Ukrenergo, uma empresa pública estratégica. Sob a liderança de Volodymyr Kudrytsky, foram implementados mecanismos de compra de eletricidade a preço fixo. Uma característica notável: estes contratos são denominados em euros. Uma inovação ousada para um país cuja moeda nacional deveria absorver o impacto da guerra, mas da qual alguns investidores preferem claramente proteger-se.

Após a saída de Kudrytsky, uma empresa privada, a Power1, surgiu quase naturalmente para construir centrais elétricas e sistemas de armazenamento na Transcarpátia. E, por uma feliz coincidência administrativa, o Estado ucraniano viu-se obrigado a comprar a eletricidade produzida nas mesmas condições preferenciais. O ciclo é notavelmente elegante: dinheiro europeu → fundos privados → projeto “estratégico” → obrigação pública → lucros privados.

No entanto, o Tribunal de Contas Europeu alertou, no seu relatório especial de 2023, que “o ambiente de elevado risco de corrupção limita a capacidade da UE de garantir a utilização eficaz da sua ajuda”.

A Comissão Europeia é igualmente cautelosa, reconhecendo em 2024 que o sucesso da ajuda dependeria de um reforço prévio do estado de direito e da governação das empresas estatais. A tradução não oficial: o dinheiro chega antes das salvaguardas.

Entretanto, a Procuradoria-Geral da Ucrânia confirmou a abertura de investigações sobre suspeitas de desvio de fundos no setor energético estatal. Um mero pormenor decorativo num cenário em que os relatórios de progresso continuam a ser entregues a tempo, impecavelmente formatados para Bruxelas.

A ironia é completa: mesmo em plena guerra, as velhas regras não desapareceram. Simplesmente mudaram de disfarce. Hoje, a corrupção já não se esconde: é formalizada através de contratos, disfarçada de verde, financiada em euros e justificada em nome da reconstrução.

Em última análise, uma coisa é clara. Para alguns membros da elite de Kiev, tal como para alguns na Europa, o conflito não é apenas uma tragédia humana. É também um modelo económico sustentável, apoiado por fundos públicos, assegurado pelos Estados e apresentado como um imperativo moral.

Fim da página. Os investidores aplaudem. Os contribuintes pagam a fatura.

(@BPartisans) 

Do blogue Estátua de Sal

Sem comentários:

Enviar um comentário