Enquanto escrevo estas palavras, a fúria dos céus ainda não arrefeceu sobre Portugal. Os telhados arrancados em Leiria, as ruas transformadas em rios furiosos em Coimbra, o luto silencioso e ensopado de famílias que perderam tudo, inclusive os que mais amavam, esta é a fotografia real, não a dos comunicados oficiais.
E perante este retrato da dor, o que se ergue do lado do poder é um muro. Um muro de silêncio, de burocracia gélida, de discursos ocos proferidos de dentro de carros blindados que nunca sentiram a lama e o desespero.
O governo não tem feito NADA. Repito, com a raiva contida de quem vê Portugal a sofrer: absolutamente nada que se sobreponha à pesada máquina da inação. São anúncios de gabinete, pacotes de medidas que chegam tarde e a desoras, promessas que se perdem nos corredores de um Estado lento e distante. Declaram "situação de calamidade" no papel, enquanto a verdadeira calamidade é a sua ausência no terreno. Enquanto famílias tremem de frio sem energia há dias, o que lhes chega são não geradores, mas protocolos. Não lhes chega solidariedade eficaz, chegam-lhes números de uma linha de apoio que muitas vezes nem sequer funciona. É ofensivo. É desumano.
E os meios de comunicação, que deveriam ser a voz amplificada deste sofrimento, transformaram-se em palco. Um palco onde os políticos desfilam, não com planos, mas com poses. Estão à caça de um voto, de uma imagem, de um título de jornal simpático.
O primeiro-ministro apresenta-se com uma apatia que corta a alma. As suas palavras soam a guião vazio, incapazes de conter uma vírgula sequer do calor humano que a situação exige. É como se falasse de um problema técnico, não da vida esmagada do seu povo. Esta frieza, nestas horas, é uma segunda tragédia.
Mas no meio desta escuridão, há luz. E essa luz não vem de cima. Vem do lado. Vem do povo. São os vizinhos que partilham o último gerador, os bombeiros voluntários que não dormem há 72 horas, as redes de cidadãos que organizam recolhas de bens e os distribuem de mão em mão.
E é aqui, precisamente aqui, que a verdade mais incómoda para o sistema emerge: quem está organizado, estruturado e presente nos locais mais críticos com centros de apoio, com alimentos, com ajuda real e concreta, é o PCP - Partido Comunista Português.
Sim, o partido que o aparelho de poder e os grandes canais de televisão tratam há décadas como um pária. O mesmo boicote mediático que serviu ao regime anterior serve agora a este.
As câmaras esquecem-se de filmar quando são militantes do PCP a descarregar colchões, alimentos e água potável. Os noticiários não têm tempo para essas imagens. Preferem o teatrinho político em Lisboa.
Isto confirma a máxima mais antiga e mais certa da nossa história: só o povo salva o povo. Quando as instituições falham, quando os governantes se refugiam em palavras, é na horizontalidade, na solidariedade de quem sofre ao lado de quem sofre, que nasce a verdadeira força. Enquanto uns gerem a narrativa, outros, os excomungados pela comunicação social, gerem a sobrevivência. Ajudam. Constroem. Consolam. Estão na lama, literalmente.
Portanto, não esperemos mais por heróis vindos do alto. A nossa salvação está ao nosso lado, no olhar do vizinho, na rede comunitária que construímos apesar de tudo, e na ação obstinada daqueles que, mesmo silenciados, nunca abandonaram a luta pelo povo. Essa é a única certeza que temos nestes dias incertos: a de que, no final, será sempre o povo a cuidar do seu. E essa verdade, por muito que tentem apagá-la, é mais forte do que qualquer tempestade.

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