(João Gomes, in Facebook, 25/02/2026)

Em 2025 escrevi sob o peso de uma guerra prolongada e de um ambiente estratégico saturado de medo, rearmamento acelerado e retórica maximalista. A Europa despertava tarde para vulnerabilidades acumuladas, investia em defesa, falava de autonomia estratégica – mas fazia-o num clima psicológico que começava a normalizar o impensável. É nesse espírito de guerra que devem ser enquadradas as declarações de ontem do almirante na reserva Henrique Gouveia e Melo.
As suas palavras exatas foram claras: a Rússia só teria vantagem num conflito prolongado com a União Europeia se recorresse à guerra nuclear – algo que considerou “impensável”, porque as ogivas nucleares de França e Reino Unido seriam suficientes para dissuadir. “Não é preciso ter mil ogivas nucleares, basta 200 ou 300 para destruir o território todo”, afirmou.
Importa ser intelectualmente rigoroso: o almirante não defendeu a proliferação nuclear europeia. Referia-se ao arsenal já existente de França e Reino Unido como suficiente para dissuasão. A crítica, portanto, não é sobre expansão nuclear. É mais profunda do que isso.
1. A banalização aritmética do apocalipse
Mesmo no contexto da dissuasão, afirmar que “basta 200 ou 300 para destruir o território todo” reduz a questão nuclear a uma equação quantitativa. Ora a dissuasão não é uma operação de contabilidade. É um equilíbrio psicológico, político e estratégico extremamente delicado. Transformar centenas de ogivas – instrumentos de devastação irreversível – num argumento quase técnico produz um efeito perigoso: normaliza a linguagem da aniquilação como parte aceitável do debate corrente.
Dizer que algo é “impensável” enquanto se descreve, com aparente serenidade, a capacidade de destruição total cria uma tensão retórica inquietante.
2. A ilusão da estabilidade automática
A ideia implícita nas declarações é esta: a Rússia não recorrerá ao nuclear porque sabe que a resposta franco-britânica seria devastadora. Essa lógica parte de três pressupostos discutíveis:
– racionalidade perfeita de todos os atores;
– ausência de erro de cálculo ou escalada acidental;
– inexistência de cenários intermédios (uso limitado, demonstração tática, erro técnico).
A história da dissuasão nuclear mostra que o equilíbrio não depende apenas do número de ogivas, mas da prudência política, da comunicação controlada e da redução da retórica inflamada. Quanto mais o discurso público passa a falar em números de destruição total, mais se enfraquece a própria cultura estratégica que sustenta a estabilidade.
3. O “espírito de guerra” como enquadramento mental
O almirante identifica os próximos três anos como período de maior risco, associa vulnerabilidade europeia a um ciclo político específico e defende a necessidade de “prender a Rússia na Ucrânia” até que o rearmamento europeu esteja completo. Isto não é apenas análise estratégica. É a consolidação de uma mentalidade de contenção prolongada, quase estrutural.
Quando o debate passa a assumir como dado adquirido um horizonte de confronto inevitável, a política deixa de procurar saídas e passa a gerir tensões permanentes. É esse o verdadeiro risco do espírito de guerra: ele infiltra-se na linguagem antes de se manifestar nos campos de batalha.
4. Força não substitui estratégia
A Europa tem desafios reais:
– dependências estratégicas passadas,
– necessidade de reforço industrial e militar,
– incertezas na arquitetura transatlântica.
Mas nenhuma dessas fragilidades se resolve através da evocação explícita da capacidade de destruir “o território todo” de um adversário. A credibilidade europeia constrói-se com coesão política, capacidade industrial, clareza diplomática e prudência estratégica – não com a quantificação do poder de aniquilação.
5. A responsabilidade da palavra
Um almirante na reserva e ex-candidato presidencial não fala como comentador casual. Fala como alguém que conhece o peso real da guerra. Num continente que vive sob a sombra histórica de duas guerras mundiais e sob o equilíbrio nuclear desde 1945, a responsabilidade da palavra é parte da própria estratégia. A dissuasão funciona melhor quando é silenciosa. Quando se torna argumento televisivo, perde parte da sua racionalidade e ganha dimensão emocional.
Tem de se recusar a normalização discursiva do fim. Falar de centenas de ogivas como variável suficiente para “destruir o território todo” pode parecer frieza estratégica. Mas pode também revelar uma preocupante habituação à ideia do irreversível. Num tempo em que o espírito de guerra se infiltra no vocabulário político europeu, talvez a verdadeira maturidade estratégica consista em conter não apenas arsenais – mas também palavras.
Por vezes, a prudência não é fraqueza. É civilização. E, sim, há momentos em que mais valia estarem calados.
Bom dia!
Do blogue Estátua de Sal
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