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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

As gajas são pessoas muito nervosas:

(Luís Rocha, in Facebook, 25/02/2026, Revisão da Estátua)

O nosso ministro da Agricultura, José Manuel Fernandes, deve ter deixado a máquina de sulfatar no meio do campo para ir até Coimbra explicar àquela mulher de galochas como se faz governação moderna. Primeiro fala-se para as câmaras, depois, se ainda restar tempo entre um direto e duas selfies institucionais, ouvem-se os autarcas. A agricultura contemporânea cultiva a imagem. E a colheita faz-se ao fim da tarde no telejornal.

Mas, no meio do arrozal mediático, surgiu o imprevisto. A autarca Ana Abrunhosa, criatura estranha que anda por ali a dar ordens, a pôr diques na linha e a falar de obras como se aquilo fosse competência dela. Com a mania que é gajo. Teve o desplante de interromper o ritual e perguntar se o senhor ministro vinha ouvir os autarcas ou inaugurar uma conferência de imprensa ambulante.

Um ultraje. Um atentado à fotossíntese governativa.

E aí, então, o país aprendeu uma lição já milenar. As gajas são pessoas muito nervosas.

Depois de cheias, temporais e populações aflitas, explicou o ministro com paternal serenidade, é natural que os sentimentos falem mais alto. Tradução rural: coitada, está emocionalmente alterada. Não é que tenha razão quanto ao protocolo institucional. É o stress. A água mexe com os nervos femininos.

Nada de novo debaixo do sol.

Desde Aristóteles que há homens sérios a garantir que a mulher é uma versão húmida da racionalidade, sempre à beira da histeria, invenção médica que durante séculos serviu para explicar qualquer manifestação feminina que não fosse silêncio decorativo. Se ela levanta a voz, é descontrolo.

 Se ele levanta a voz, é liderança. Se ela exige prioridade institucional, é nervosismo. Se ele ignora os autarcas para falar aos microfones, é estratégia.

E repare-se na elegância da técnica. Não se rebate o argumento. Diagnostica-se o temperamento. É uma forma suave de deslegitimação, quase poética. A crítica deixa de ser política para passar a ser clínica. Não se discute o mérito, prescreve-se camomila.

Simone de Beauvoir explicou há décadas que a mulher foi construída como “o Outro”, um apêndice emocional da razão masculina. Mas aqui estamos, no Baixo Mondego, a confirmar que a tradição continua fértil. O dique pode rebentar, as culturas podem afogar-se, mas o verdadeiro perigo é uma mulher falar antes da conferência de imprensa.

Não esquecendo aquele detalhe quase pitoresco de que este ministro que recebe subsídio de alojamento, apesar de possuir residência em Lisboa – tudo legal, claro, tudo publicado no Diário da República -, vem ensinar contenção emocional a quem anda de galochas a gerir prejuízos reais. É um contraste delicioso. Uns tratam da lama, outros tratam da narrativa.

O mais notável é que a crítica da autarca era objetiva e simples. Numa visita institucional, os eleitos locais devem ser ouvidos antes da encenação televisiva. Não é um ataque de nervos. É protocolo básico. Mas admitir isso implicaria reconhecer que uma mulher corrigiu um ministro em público, e isso, na velha agricultura simbólica do poder, é uma infestação grave.

Historicamente, sempre que uma mulher ocupou o espaço da autoridade, surgiram diagnósticos estratosféricos. Margaret Thatcher era demasiado dura. Hillary Clinton era demasiado fria ou demasiado emocional, conforme o dia. O padrão é estável como um terreno argiloso: se ela é firme, é agressiva, se é empática, é fraca.

E assim continuamos a cultivar espantalhos retóricos enquanto fingimos que o campo é neutro. O país assiste, entre enxurradas e diretos televisivos, à eterna pedagogia do paternalismo: quando uma mulher exige respeito institucional, é porque os nervos falaram mais alto. Quando um ministro sugere isso, é apenas sensatez meteorológica.

Depois deste episódio resta-nos agradecer a lição agrária. As cheias passam. As obras fazem-se. Os subsídios publicam-se. Mas a velha ideia de que as gajas são pessoas muito nervosas continua perene, como erva daninha que resiste a qualquer modernização.

E talvez o verdadeiro incómodo não seja o nervosismo feminino. Talvez seja o facto de, no meio da lama, alguém ter tido a ousadia de lembrar que governar não é posar para as câmaras.

Beijinhos e até à próxima…


Referências consultadas

Diário de Notícias – “Vem fazer conferência de imprensa ou ouvir os autarcas?”

https://www.dn.pt/…/vem-fazer-conferencia-de-imprensa…

Rádio Renascença -Tensão entre autarca e ministro em Coimbra

https://rr.pt/…/em-coimbra-nao-volta-a-fazer…/460699

Jornal de Notícias – Repreensão pública ao ministro

https://www.jn.pt/…/ana-abrunhosa-repreende…/18055556

Diário da República – Despacho relativo ao subsídio de alojamento

https://diariodarepublica.pt/…/des…/12113-2024-890820723

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