O que escrevo nada tem a ver com partidarismos. O mesmo escreveria sobre qualquer outro — pouco diferem.
Ouvi a sua mensagem ao país, entusiástica, quase orgástica, na qual, novamente, apresentou Cristiano Ronaldo como exemplo maior para os portugueses e, por isso, os aconselha a seguir-lhe o exemplo.
O jogador é líder, um grande líder, mas no futebol….
Sei que quem se mete com Ronaldo leva. Estou pronto a levar.
É sempre fácil passar a mão pelo pêlo de quem dá protagonismo. Num tempo em que o futebol vive o seu auge — agora deslocado para as Arábias — só há ganhos políticos em afagar a figura que garante flashes televisivos, aplausos fáceis e consensos rápidos.
Mas, Sr. Primeiro-Ministro, enquanto uns jogam em relvados perfeitos, há quem jogue todos os dias num terreno bem mais pantanoso: o da doença, da dor e da morte.
Falo da área que me toca.
Enfermeiros , médicos, auxiliares — não precisam das suas lisonjas ocasionais, nem das da Sr.ª Ministra da Saúde, que depois de políticas duras e desastrosas surge, por vezes, com um sorriso hipócrita a elogiar quem continua a segurar o sistema.
Os portugueses não precisam de exemplos galvanizadores. Estão há muito galvanizados.
Precisam, isso sim, de condições.
Precisam de salários que ultrapassem os mil e poucos euros líquidos.
Os médicos precisam de hospitais.
Os professores, de escolas.
Os juízes, de tribunais.
E repare: nem sequer exigem a relva do Ronaldo.
Sr. Primeiro-Ministro, não queremos ser heróis, nem precisamos de heróis como exemplo.
Queremos apenas continuar a cumprir o nosso dever — com dignidade.
Não precisamos dos seus incentivos, nem do exemplo de Cristiano Ronaldo.
Precisamos do mesmo respeito que diz ter por ele.
Já fora de combate, com as chuteiras arrumadas, não falo por mim.
Falo por quem lá está.
As lágrimas de milhares de enfermeiros — que estão 24 horas sobre 24 com os doentes — valem mais do que mil golos de qualquer Ronaldo.
Valem porque são choradas onde já não há palavras para o sofrimento.
Sr. Primeiro-Ministro, a sua sugestão foi inoportuna.
Quantos Luíses, Josés e Joões não lutam todos os dias?
Não nos relvados viçosos das Arábias,
mas no pelado lamacento de Freixo de Espada à Cinta ou de Freixo Espingarda ao Ombro.
Não queremos lisonjas.
Não queremos rebuçados.
No meu tempo, rebuçados davam-se para enganar crianças.
Nós queremos respeito.
E que não nos façam passar por parvos.
Não me inquietam os muito ricos, inquietam-me os muito pobres…

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