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quinta-feira, 28 de abril de 2022

133.º aniversário do nascimento de Salazar e 77.º da morte de Mussolini:

O céu está hoje límpido e o tempo agradável numa primavera sob o medo da pandemia e com receio da recidiva do vírus que voltou a atingir amigos e conhecidos. Da Ucrânia, em vez da paz, chegam multidões de refugiados a uma Europa que já paga caro o gás e com a UE a empobrecer enquanto acentua a situação de satélite anglo-americano.
Não bastam os mortos e estropiados, as famílias em fuga, os haveres perdidos, os lares abandonados, o luto, a raiva e o desespero. O espetro de uma guerra nuclear continua a pairar perante o entusiasmo de belicistas de sofá e a frieza assassina de quem tem o poder de a desencadear. O mundo, ensandecido, não aprendeu com horrores do passado e, enquanto o sangue não jorra nas nossas famílias, a excitação da derrota dos invasores move as emoções que a propaganda exacerba.
A comunicação social, tão dada a evocar mortes, parece ter esquecido o nascimento do abutre de Santa Comba Dão, o pérfido seminarista que, segundo a Ir. Lúcia foi enviado pela Providência Divina, o organismo do Teocracia Celeste que escolhe políticos sem recurso ao incómodo do sufrágio popular.
Faz hoje 133 anos que nasceu o sinistro ditador que acreditava na bondade de Cerejeira e na eficácia de uns pontapés dados a tempo como profilaxia dessas ideias nefastas, que a Europa exportava, de exóticos regimes conhecidos por democracias.
Não há notícia de missas de sufrágio, novenas de ação de graças ou orações por alma do ditador. Vergonha ou amnésia, os próprios herdeiros espirituais renunciaram à herança e envergonham-se de dar testemunho público da saudade pelo torcionário que tinha sobre a mesa de trabalho a fotografia de Mussolini.
Nem Nuno Melo, ora líder dos cuidados intensivos do CDS, a tentar a sua ressurreição, tão entusiasta a pedir um voto de pesar na AR no passamento do indefetível salazarista, Cónego Melo, tem uma palavra de saudade pelo defunto ditador. Nem o líder fascista a quem deve a herança salazarista tem uma palavra de pesar.
E vejam lá, leitores, a ironia do calendário! Benito Mussolini, que assinou os acordos de Latrão, também enviado pela Providência divina, segundo o Papa de turno com quem se obrigou a tornar obrigatório o ensino da religião católica nas escolas públicas italianas e a quem entregou um avantajado óbolo do tesouro italiano, Benito Mussolini – dizia –, foi executado no dia de hoje, há 77 anos, no Lago Como, quando tentava a fuga para a Suíça. Os guerrilheiros italianos travaram-lhe o passo.
A tarde continua luminosa neste dia de pesadas efemérides, um nascimento e um óbito, de dois crápulas que jamais deviam ter nascido, e a Europa espera de Guterres o milagre que devia ter procurado, a paz que não devia ter deixado quebrar, enquanto germina no seu espaço o ambiente que levou à ascensão do nazi/fascismo.
Carlos Esperança

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