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segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Personagens de Freamunde:

Esta a quem vou dedicar um pouco de tempo conhecia já ele era um sexagenário e eu um miúdo de nove ou dez anos. Não foi uma boa circunstância. Nada disso. Aliás quem ia a casa dele era pelas piores circunstâncias. Excepto uma ou outra pessoa. Comigo aconteceu da seguinte forma:

Um dia a jogar à bola torci um pé. Quando isto acontece não damos logo fé da dor que advém. Só passadas uma horas ou dias é que nos apercebemos. Assim aconteceu comigo. A minha saudosa mãe vendo-me naquela situação e, como mãe, tratou logo de me aliviar a dor. Panos quentes e descanso. Era o remédio da época. Gelo, aguardente e outras coisas mais não estava no vocabulário dos pobres. Gelo os pobres não possuíam frigoríficos. Aguardente tinha outras funções.

Como não passava e o inchaço no pé cada vez aumentava mais há que socorrer da Personagem a quem me refiro: Se Martinho Catano o endireita ossos cá da terra. Vivia em Freamunde de Cima e eu na Bouça. Era uma distância para cima de quinhentos metros. Há que a fazer agarrado a um pau ao chinca-manque e com a ajuda da minha mãe.

Chegados ali fomos anunciados porque esta actividade era clandestina. Havia médicos – género “Ordem dos Médicos” – que viam esta actividade fraudulenta e enganosa. Por isso as fugidas ali às vezes pela calada de noite.

Entramos e num alpendre coberto a colmo, à entrada da casa, a maioria das vezes era ali o seu “consultório”. Num carro de bois que geralmente ali se encontrava sentava-se o paciente e o seu “médico”. Não sei que dom tinham aquelas mãos. Mas que eram abençoadas lá isso eram. Mal me tocou no pé, moveu alguns tendões, a dor simultaneamente passou.

Por uma consulta assim quanto um médico ou fisioterapeuta levava? Naquele tempo uns cem escudos! Não era o que Se Martinho cobrava. Aliás não cobrava nada. A maioria das pessoas oferecia um volume de cigarros fortes. Mesmo assim não queria aceitar. Freamunde num dia qualquer ficou sem o Se Martinho. Já não desenvolvia a actividade.

Mas houve quem em Freamunde não deixasse morrer o Se Martinho. António Rodela e Vitorino Ribeiro o primeiro com os versos o segundo com a caricatura eternizaram o nome de Se Martinho pelo tempo fora no livro Pedaços de Nós e a Comissão de Toponímia de Freamunde com o seu nome à rua onde era a sua casa. .

Eu com este texto e o pequeno vídeo que exponho para lhe agradecer as vezes que me consertou os pés e mãos. Pois sempre foram os meus pontos fracos enquanto joguei futebol. 

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