Hoje vou contar-vos uma história da minha infância que, como muitas das histórias, se podem retirar algumas reflexões interessantes.
“O João com Sorte trabalhou a vida inteira para um patrão que, quando ele se reformou, lhe ofereceu duas moedas de ouro. O João com Sorte deu pulos de alegria pois o que mais ambicionava na vida era ter moedas de ouro. Mas logo a alegria se dissipa. Para que me servem as moedas de ouro? E nisto vê vir um homem com um cavalo. Ah, diz o João com sorte: tanto que eu desejava ter um cavalo!... O senhor não quererá trocar o seu cavalo pelas minhas moedas de ouro? O outro aceitou pois o cavalo valia muito menos que as moedas de ouro. Louco de alegria de imediato João com Sorte começou a reflectir: mas para que quero eu um cavalo? Nem sequer sei montar!... Nisto vê um homem a pastar uma vaca. E logo o João com Sorte pensa: uma vaca dá muito leite e eu sempre quis ter uma vaca. O senhor não quer trocar a sua vaca pelo meu cavalo? De imediato se fez a troca porque a vaca valia menos que o cavalo. Contente, João com Sorte vai a caminhar e logo reflecte: para que quero eu uma vaca? Nem sequer sei mugir o leite!.. E nisto encontra uma mulher a conduzir um porco com uma varinha. Encantado João com Sorte logo lhe pergunta: a senhora não quer trocar o seu porco pela minha vaca? E o negócio voltou a fazer-se com prontidão posto que o porco valia menos que a vaca. Mas, tal como nas vezes anteriores, João com Sorte logo se cansa do porco e encontra um homem com um pato debaixo do braço. Não quererá o senhor trocar o seu pato pelo meu porco? E o homem trocou. Mas logo, após a alegria inicial, João com Sorte se cansou do pato. E eis quando encontra um amolador de facas e tesouras a quem propôs trocar o pato por uma pedra de amolar. E mais uma vez o “negócio” se concretizou. Mas, já cansado, João com Sorte que caminha com a pedra no bolso e fazia muito calor, vai beber água a um rio e deixa cair a pedra para um lugar inacessível. Quando isso acontece, João com Sorte põe-se a cantar e a dançar: Eu sou um homem de sorte. Sempre quis ter duas moedas de ouro e tive. Sempre quis ter um cavalo e tive. Sempre quis ter uma vaca e tive. Sempre quis ter um porco e tive. Sempre quis ter um pato e tive. Sempre quis ter uma pedra de amolar e tive. E quando a malandra da pedra me estava a pesar no bolso até tive a sorte dela me cair ao rio.”
Esta história mostra-nos como todos os prazeres são transitórios e como as expectativas nunca correspondem à realidade. A felicidade consiste em desprender-nos da posse e adoptarmos a mudança e o percurso com naturalidade tirando de cada coisa a alegria que nos proporciona enquanto proporciona. O valor não está no objecto em si, mas na satisfação que ele nos deu em determinado momento.
Há, por isso, que levar a vida com o máximo de desportivismo em relação a desejos que nunca serão satisfeitos porque nada é nosso. E, sobretudo, chegarmos ao fim da vida com a consciência tranquila em relação aos diferentes registos que tivemos. Não termos reclassificações a fazer, no fim do nosso percurso, é o património mais valioso e gratificante que poderemos dar a nós próprios.

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