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segunda-feira, 20 de abril de 2020

A Falácia:

A falácia, ao contrário da mentira, tem as pernas longas. A falácia vem sempre com um brinde.

Da Wikipédia, para ser acessível a todos: Designa-se por falácia um raciocínio errado com aparência de verdadeiro.
Na lógica e na retórica, uma falácia é um argumento logicamente incoerente, sem fundamento, inválido ou falho na tentativa de provar eficazmente o que alega. Argumentos que se destinam à persuasão podem parecer convincentes para grande parte do público apesar de conterem falácias, mas não deixam de ser falsos por causa disso.

Os argumentos falaciosos podem ter validade emocional, íntima, psicológica, mas não validade lógica.

O básico de um argumento é que a conclusão deve decorrer das premissas. Se uma conclusão não é consequência das premissas, o argumento é inválido. Deve-se observar que um raciocínio pode incorrer em mais de um tipo de falácia, assim como que muitas delas são semelhantes.

Eu respeito todos os argumentos contra a celebração do 25 de Abril pela Assembleia em que, no regime democrático pelo qual optámos e que está constitucionalmente definido, se reúnem os nossos representantes, os deputados.

Mas uma coisa são argumentos, aquelas proposições em que a conclusão deve decorrer das premissas e outras são proposições logicamente incoerentes, sem fundamento, com o objetivo de persuadir. Argumentos falhos de lógica.

Alguns argumentos falhos de lógica, falácias, mais frequentes:

1. Eles — a Assembleia da República — vão realizar uma celebração (um ato coletivo em nome de um facto, no caso) — e eu não pude despedir-me do meu ente querido no seu ultimo ato, o funeral, nem ir à missa na Páscoa. É comparar realidades de universos distintos — alhos com bugalhos — Um funeral é, para os intervenientes, um ato único, mas em termos de sociedade é um funeral entre 306 realizados em média diariamente (dados da Pordata, falecimentos em Portugal em 2019: 111757). Reunir cerca de 150 pessoas em situações reguladas no Parlamento durante um tempo limitado é, obviamente, diferente de autorizar um acompanhamento desregulado de 306 funerais. Acresce que os familiares e os próximos do defunto autorizados a participar são em número razoável, se considerarmos 10, teremos um número de mais de 3 mil. É uma falácia recorrer a este argumento. Quanto à missa, segundo um estudo de José Pereira Coutinho da Universidade Católica (http://orcid.org/0000-0002-2733-3476) em 2016 era a seguinte a frequência de serviços religiosos: considerados católicos 69% da população (7 milhões para uma base de 10 milhões), e a frequência de serviços religiosos era estabelecida em 26%, o que dá para a presença num ato como a missa de Páscoa de cerca de 1,8 milhões de pessoas! Na AR estarão entre 150 e 170 durante cerca de 2 horas e em circunstâncias muito controladas sanitariamente.

2. Eles — a Assembleia da República — deviam dar o exemplo. A AR tem funcionado diariamente, com os condicionamentos que ela própria estabeleceu — o que é o seu direito e dever, enquanto órgão de soberania não dependente de qualquer outro. Logo, ao reunir a 25 de Abril está a dar o exemplo de que os portugueses que têm funções importantes para a comunidade — e produzir legislação e representar a sociedade são funções importantes — devem continuar em funções. Um programa popular, numa televisão popular até designa esses portugueses como “resistentes”. Ora, segundo os utilizadores da falácia, estes resistentes — os deputados — não deviam ir desempenhar a sua função no dia em que se celebra o acontecimento que permitiu aos portugueses serem por eles democraticamente representados! Estamos perante mais uma falácia!

3. A terceira falácia é a dos que afirmam, tudo bem, mas o 25 de Abril podia ser comemorado de outra maneira, noutro local. Desde que me lembro se fala em “inovar” nas cerimónias do 25 de Abril. A falácia é dupla porque as cerimónias têm um aspeto formal ao qual não se pode fugir, porque é essa formalidade que faz delas cerimónias. É assim com as aberturas dos anos solenes, sejam das universidades sejam do ano judicial, mas é assim, formal e repetido, com casamentos, batizados, funerais, é assim com inaugurações de obras públicas, sejam municipais sejam nacionais, é assim com as cerimónias de doutoramento nas universidades, de final de cursos, e até na final das Taças de Portugal em futebol! É assim com a receção a Chefes de Estado estrangeiros, a apresentação de credencias de embaixadores. É assim com o içar e o arrear da bandeira nacional. Todos cantamos o parabéns a você na data dos aniversários. Neste do 25 de Abril é que não para os nossos representantes não serem infetados! Que amorosos são os falaciosos que passam um ano a denegrir o parlamento e os parlamentares e tão preocupados se mostram com eles, com a sua saúde e das excelentíssimas famílias!

Por fim, enquanto militar envolvido no 25 de Abril de 1974, enquanto cidadão democrata, sinto-me reconhecido por os deputados eleitos no regime que ajudei tant bien que mal a implantar se reúnam para assinalar esse acontecimento e corram eventuais riscos para a sua saúde.

Haverá os que não sentem essa gratidão. Eu sinto. Bem hajam os deputados, o presidente da Assembleia, o presidente da República e todos os que por dever de função vão estar na Assembleia da República no dia 25 de Abril de 2020 a assinalar o acontecimento no local e na data adequada e o que através dele conseguimos enquanto comunidade. Já agora espero não ver nenhum dos preocupados com a aglomeração de representantes do nosso Estado na Assembleia da República nas praias, nos supermercados, a atravessar pontes e portagens. Cada em na sua casinha, com o gatinho ao colo, ou a fiar!

Carlos Matos Gomes

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