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quinta-feira, 14 de março de 2013

Quinta-feira. Tango dos Barbudos:


O dia catorze de Março de mil novecentos e setenta e três não me sai da memória e todos os anos o recordo. Nasceu limpo, de sol radioso, como quase todos os dias em Balacende, Angola. Na véspera tinha chegado a Balacende depois de quase uma semana em Quicabo, em treinos, com a finalidade de efectuarmos um jogo de futebol que se realizou no dia onze de Março, com o Batalhão de Caçadores 3840, na nossa despedida de Angola, marcada para três de Abril. O primeiro contingente de tropas da Companhia de Caçadores 3341, partia para o Grafanil, no qual estava incluído, a dezasseis de Março. 
Como tinha chegado no dia treze à noitinha a minha primeira acção foi ir até ao posto de rádio – era Radiotelefonista – para me inteirar do serviço de escala e pôr a escrita em dia com meus familiares, amigos e namorada.
Quando ali me encontrava, era manhã cedo, estava de serviço o soldado radiotelefonista Alves. Apercebi-me de um posto de rádio a chamar intensivamente por outro, não percebia quais os indicativos e não estava a ser correspondido. As condições climatéricas no norte de Angola regra geral da parte da manhã eram bastantes difíceis o que tornava uma acutilância maior aos operadores de rádio. Disse ao soldado Alves que estava alguém com dificuldade e era melhor ele entrar em rede. 
Disse-me que não tinha ouvido nada. Então peguei no microfone e comecei a chamar: ao posto que se encontra no ar informe seu indicativo pausadamente condições audíveis difíceis. Pausadamente informou-me que tinham caído numa emboscada na zona das sete curvas e precisavam urgentemente de auxílio.
Estava um pelotão preparado para levar os trabalhadores da Junta Autónoma de Estradas de Angola (J.A.E.A.) para o trabalho que se desenrolava próximo da Beira Baixa, disse ao comandante de escolta para adiar a partida e irem em socorro dos que tinham caído na emboscada. Informei-lhe qual a localização e que o radiotelefonista fosse em escuta permanente (AS) caso fosse preciso dar-lhe informações.
Nesse dia e em todos os catorze de Março o Movimento Para a Libertação de Angola (MPLA), antes União Povos Africanos, comemorava o seu aniversário, regra geral, brindava o Exército Português com uma espera (emboscada), para dizerem que estavam "vivinhos da silva" e, podíamos contar com eles. Foi o que aconteceu. Deram-nos um rombo tanto físico como moralmente. Morreram uns poucos de soldados e o soldado Auto-Rodas, Manuel Damas, foi dado como desaparecido.
Nesse dia e nos seguintes fez-se buscas por tudo que era mata, apeados ou com ajuda da aviação (helicópteros), mas de nada valeu. 
Os nossos superiores não nos avisaram e não deram importância ao catorze de Março e assim aconteceu uma tragédia. Estas emboscadas não são feitas de um momento para o outro pelo que já deviam estar emboscados pelo menos há um dia.
O que me faz falar e lembrar é que na véspera tinha ali passado a caminho de Balacende, minha unidade, e só por sorte é que não fui emboscado. Passo a explicar:
Como tinha estado uns dias ao serviço da selecção de futebol do batalhão, como referi em cima, no dia treze de Março havia uma coluna que ia passar a Balacende o que me levou a pedir ao responsável pela coluna para me incluir nela. Disse-me que não era possível o que me levou a ir estar com o responsável pela Selecção de Futebol do Batalhão, Capelão, Alferes Miliciano, a quem tratávamos com carinho, por Padre Zé, - para informação de quem jogou futebol na Associação de Futebol do Porto, primeira divisão distrital, o Padre Zé fez parte do F. C. Maia quando estava nos Missionários Combonianos, Maia, por isso o bichinho da bola - que intercedesse para que fosse integrado nessa coluna porque tinha necessidade de ir para Balacende nesse dia. 
O pedido foi satisfeito e assim livrei-me de ter de ali passar no dia catorze que era o que estava para ser, caso não fosse, como fui no dia treze.
Por isso lembro-me todos os anos o dia catorze de Março de mil novecentos e setenta e três. Pelo que relatei, se não fosse assim, talvez a esta hora não estivesse aqui a escrever estas linhas ou me tivesse acontecido o mesmo que ao condutor Auto-Rodas, Manuel Damas, que foi repatriado após o vinte e cinco de Abril de mil novecentos e setenta e quatro como prisioneiro de guerra. 

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