O dia catorze de Março de mil novecentos e setenta e três não me sai da
memória e todos os anos o recordo. Nasceu limpo, de sol radioso, como quase todos os dias em Balacende,
Angola. Na véspera tinha chegado a Balacende depois de quase uma semana em
Quicabo, em treinos, com a finalidade de efectuarmos um jogo de futebol que se realizou no dia onze de Março, com o Batalhão de
Caçadores 3840, na nossa despedida de Angola, marcada para três de Abril. O primeiro contingente
de tropas da Companhia de Caçadores 3341, partia para o Grafanil, no qual estava incluído, a dezasseis de Março.
Como tinha chegado no dia treze à noitinha a minha primeira acção foi ir até ao posto de rádio – era Radiotelefonista – para me inteirar do serviço de escala e pôr a escrita em dia com meus familiares, amigos e namorada.
Como tinha chegado no dia treze à noitinha a minha primeira acção foi ir até ao posto de rádio – era Radiotelefonista – para me inteirar do serviço de escala e pôr a escrita em dia com meus familiares, amigos e namorada.
Quando ali me encontrava, era manhã cedo, estava de serviço o soldado radiotelefonista
Alves. Apercebi-me de um posto de rádio a chamar intensivamente por outro, não percebia quais os indicativos e não estava a ser correspondido. As condições climatéricas no norte de
Angola regra geral da parte da manhã eram bastantes difíceis o que tornava uma
acutilância maior aos operadores de rádio. Disse ao soldado Alves que estava
alguém com dificuldade e era melhor ele entrar em rede.
Disse-me que não tinha ouvido nada. Então peguei no microfone e comecei a chamar: ao posto que se encontra no ar informe seu indicativo pausadamente condições audíveis difíceis. Pausadamente informou-me que tinham caído numa emboscada na zona das sete curvas e precisavam urgentemente de auxílio.
Disse-me que não tinha ouvido nada. Então peguei no microfone e comecei a chamar: ao posto que se encontra no ar informe seu indicativo pausadamente condições audíveis difíceis. Pausadamente informou-me que tinham caído numa emboscada na zona das sete curvas e precisavam urgentemente de auxílio.
Estava um pelotão preparado para levar os trabalhadores da Junta Autónoma
de Estradas de Angola (J.A.E.A.) para o trabalho que se desenrolava próximo da
Beira Baixa, disse ao comandante de escolta para adiar a partida e irem em
socorro dos que tinham caído na emboscada. Informei-lhe qual a localização e
que o radiotelefonista fosse em escuta permanente (AS) caso fosse preciso dar-lhe
informações.
Nesse dia e em todos os catorze de Março o Movimento Para a Libertação de
Angola (MPLA), antes União Povos Africanos, comemorava o seu aniversário, regra geral, brindava o Exército
Português com uma espera (emboscada), para dizerem que estavam "vivinhos da silva" e, podíamos
contar com eles. Foi o que aconteceu. Deram-nos um rombo tanto físico como
moralmente. Morreram uns poucos de soldados e o soldado Auto-Rodas, Manuel Damas,
foi dado como desaparecido.
Nesse dia e nos seguintes fez-se buscas por tudo que era mata, apeados ou
com ajuda da aviação (helicópteros), mas de nada valeu.
Os nossos superiores não nos avisaram e não deram importância ao catorze de Março e assim aconteceu uma tragédia. Estas emboscadas não são feitas de um momento para o outro pelo que já deviam estar emboscados pelo menos há um dia.
Os nossos superiores não nos avisaram e não deram importância ao catorze de Março e assim aconteceu uma tragédia. Estas emboscadas não são feitas de um momento para o outro pelo que já deviam estar emboscados pelo menos há um dia.
O que me faz falar e lembrar é que na véspera tinha ali passado a
caminho de Balacende, minha unidade, e só por sorte é que não fui emboscado.
Passo a explicar:
Como tinha estado uns dias ao serviço da selecção de futebol do
batalhão, como referi em cima, no dia treze de Março havia uma coluna que ia
passar a Balacende o que me levou a pedir ao responsável pela coluna para me
incluir nela. Disse-me que não era possível o que me levou a ir estar com o
responsável pela Selecção de Futebol do Batalhão, Capelão, Alferes Miliciano, a
quem tratávamos com carinho, por Padre Zé, - para informação de quem jogou
futebol na Associação de Futebol do Porto, primeira divisão distrital, o Padre
Zé fez parte do F. C. Maia quando estava nos Missionários Combonianos, Maia, por isso o bichinho da bola - que intercedesse para que fosse integrado nessa coluna porque tinha
necessidade de ir para Balacende nesse dia.
O pedido foi satisfeito e assim livrei-me de ter de ali passar no dia catorze que era o que
estava para ser, caso não fosse, como fui no dia treze.
Por isso lembro-me todos os anos o dia catorze de Março de mil
novecentos e setenta e três. Pelo que relatei, se não fosse assim, talvez a
esta hora não estivesse aqui a escrever estas linhas ou me tivesse acontecido o
mesmo que ao condutor Auto-Rodas, Manuel Damas, que foi repatriado após o vinte
e cinco de Abril de mil novecentos e setenta e quatro como prisioneiro de guerra.

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