É certo que este mês de março vai ser muito difícil para os
portugueses, com algumas exceções conhecidas. Direi mesmo terrível. Aqueles que
ainda não emigraram - e os que não se suicidaram, o que começa a suceder com
frequência - estão, na sua esmagadora maioria, desesperados, contra o atual
Governo e proclamam-no todos os dias, por todo o lado e de todas as formas. A
razão é simples: resulta do empobrecimento geral, do aumento do flagelo do
desemprego e do desespero que cresce e começa a ser perigoso. Com o desemprego,
o roubo das pensões, que inesperada e ilegalmente lhes destruíram a esperança no
presente e no futuro próximo.
A verdade é que o Governo nunca lhes explicou nada e nunca se
interessou pelos portugueses, mesmo aqueles que lhes deram o voto, seguramente
por engano. É a consciência que têm hoje os cidadãos deste país - e por isso
gritam todos os dias - vaiando os ministros que aparecem na rua, raramente,
diga-se, mesmo com os capangas que os protegem e empurram e batem nos
portugueses, com crescente força.
Aos olhos de todos, o Governo só tem cometido erros sobre erros, desde
que está no poder, sem explicar a ninguém a sua versão ou visão do que faz e
para que o faz, criando uma situação cada vez mais trágica.
Para o Governo - repito -, o povo não existe nem lhe interessa. Nunca,
como se diz em linguagem popular, passou cartão ao povo. E, ao mesmo tempo,
está a destruir a classe média e a desagradar, cada vez mais, aos abastados
que, embora indiretamente, também sentem que Portugal está sem rei nem roque, e
mesmo as grandes empresas também sofrem, como é evidente. E não é pouco.
Tudo resulta da maldita austeridade que está a destruir, por toda a
parte, os países que a sofrem. Portugal está a ser liquidado, como se sabe, o
Governo não é patriota, e só obedece e paga à troika e aos mercados usurários
que a comandam. A Europa, de resto, pela força das coisas, começa a mudar
lentamente de política. É inevitável.
Vítor Gaspar, na passada sexta-feira, reconheceu, na Assembleia da
República, que se enganou em todas as previsões que fez, e não foram poucas.
Sempre o disse, mas é bom que o ministro o tenha reconhecido agora. Contudo,
insistiu que no mês em curso vai prosseguir - com cada vez maiores dificuldades
para os portugueses - com a austeridade, que nos arrasou e está a destruir
Portugal. Depois admira-se que os portugueses, em grande maioria, gritem que o
Governo acabou e deve demitir-se quanto antes, a bem ou a mal. São os
portugueses e Portugal que estão em jogo, com a exceção daqueles que só pensam
em servir a troika e os mercados usurários, e ganhar algum pelo meio...
Não são apenas as finanças e a economia que estão em péssimas
condições, mas também a política, a ética e o Estado social, sem esquecer o
ambiente, de que já ninguém fala. Para quê?
Este Governo, que não tem vergonha - senão já tinha percebido que devia
ir-se embora -, além de estar a alimentar a troika e a destruir a economia e as
finanças, está também a pôr, conscientemente, em causa a nossa jovem democracia
e a moral dos portugueses, herdadas do 25 de Abril. Porque quando o povo não
conta nem tem voz, a democracia entra, obviamente, em colapso. A começar pelos
partidos políticos e pelo Estado social, que tanto trabalho nos custou a criar,
pelos sindicatos e o ambiente, não esquecendo o nosso mar, de que tanto se
fala, mas nada de concreto se faz. E o tempo urge. Muitos estrangeiros olham para
nossa situação com cobiça.
Sem partidos não há democracia. É verdade. Ora os partidos da oposição
não são ouvidos e o que é mais grave, o próprio CDS-PP está, como não podia
deixar de ser, em quebra, segundo a última sondagem da Universidade Católica.
O Partido Comunista vai apresentar na Assembleia da República um pedido
de demissão do Governo. É oportuno. Eu, socialista, se fosse deputado, não hesitaria
em votar a favor. Porque, como é da regra, na política partidária, ou se está
de um lado ou do outro. Estar a meio caminho, só serve para os partidos se
enfraquecerem.
De resto, não é por acaso que os partidos estão em quebra. Todos.
Grande parte da opinião pública faz críticas aos partidos, sem exceção. É, no
plano democrático, grave. Uma grande parte do PSD (talvez a maioria) está
contra o Governo. O CDS procura estar e não estar, o que é uma posição que não
augura nada de bom. O PS está agora claramente contra o Governo, mas não pediu
ainda a sua demissão, o que torna, a meu ver, o vasto eleitorado do PS
desconfiado. O PCP e o Bloco de Esquerda têm proclamado a demissão do Governo,
o que agrada sobremaneira aos portugueses desesperados, sejam ou não
ideologicamente de direita ou de esquerda, apesar de os portugueses em geral
não gostarem dos partidos radicais. Mas ainda gostam menos do Governo, como é
óbvio, e querem que ele saia urgentemente do poder.
Aliás, os partidos políticos têm que se reformular e atualizar, porque
o mundo está a mudar, e de que maneira. Radicalmente. É uma situação que obriga
todos os partidos, de direita ou de esquerda, a reformularem-se, porque as
sociedades estão a mudar e os partidos - todos - têm de compreender que o mundo
não aguenta o capitalismo selvagem e a globalização sem ética. Os partidos têm
que se adaptar ao novo mundo que está a chegar e à própria Europa, nova, que
vem aí, necessariamente.
No DN de hoje

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