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quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Muçulmano e Português :

"Curioso que nunca fale do assalto ao seu gabinete", "é estranhíssimo que fale tão pouco disso quando dá conferências de imprensa porque lhe dói um dedo", fomos ouvindo a Hugo Soares, mas o líder parlamentar do PSD não é o único a suspeitar do que realmente terá acontecido no gabinete vandalizado há mês e meio e de onde desapareceram documentos que André Ventura considerou essenciais sobre o ministro da Administração Interna e o primeiro-ministro e que tinha preparado para a prometida comissão parlamentar de inquérito ao caso Neves/PJ. Se for real é gravíssimo, se for inventado é mais grave que gravíssimo", escreve Ângela Silva no Expresso.
"Caro leitor,
Ainda ressacados pela assustadora vitória da AfD no estado alemão que, embora pequeno, pré-anuncia um enorme impacto na política alemã e no futuro da Europa, assistimos a mais um número caseiro do nosso radical de direita, desta vez barrado, com competência, quer pelo ministro-polícia (o primeiro alvo a abater), quer pelo primeiro-ministro (o alvo que as sondagens põem em alerta vermelho). Luis Neves percebeu finalmente que tem que arrumar o fato de inspetor, aprumar o de ministro e falar do que está a fazer na Administração Interna e que não é pouco. Luis Montenegro levou boas notícias para pensionistas e contribuintes, faltou o bónus para a PSP e GNR, mas, com as Finanças já a tratar do assunto, a bóia para forças de segurança e MAI deve seguir dentro de momentos. E ainda tivemos o primeiro-ministro a pregar moral: "Convivo muito bem com os meus padrões éticos. Não somos infalíveis. Todas as bancadas estão cheias de gente que não é infalível".
Eles sabem do que ele fala e, entre aplausos e gargalhadas, o povo parlamentar encaixou. Ninguém ousou lembrar os tempos em que Montenegro retirou a confiança política ao ex-autarca de Espinho e ex-deputado do PSD Pinto Moreira, por este ter sido constituído arguido na Operação Vortex, ligada (adivinhe!) a projetos imobiliários. Mas isso foi em 2023, quando Montenegro ainda precisava de ganhar as legislativas, e depois disso houve a Spinumviva – quando o povo foi chamado não se importou e o mundo mudou. Agora, com a ética na política às voltas, a direita tradicional vira-se para o mais urgente e o mais urgente é responder às pessoas no que elas mais pedem no dia a dia, para tentar evitar que o nosso radical de direita chegue lá. O relógio está a contar não só para Luis Neves mas para a AD, para o PS, e para o centro político em geral, cá como na Europa. Marine Le Pen chegará, muito provavelmente, a Presidente da França em 2027, a coligação Vox/PP cresce em Espanha, Meloni bate recordes de governação em Itália e os cordões sanitários vão ser peças de museu.
O “não é não” de Montenegro está condenado a resistir até às próximas eleições, mas ninguém sabe em que condições lá chegará. Caído do céu para a AD seria um click, um facto, algo que subitamente perturbasse a caminhada ascendente do Chega e é indisfarçável a expetativa em redor do gabinete de Ventura. "Curioso que nunca fale do assalto ao seu gabinete", "é estranhíssimo que fale tão pouco disso quando dá conferências de imprensa porque lhe dói um dedo", fomos ouvindo a Hugo Soares, mas o líder parlamentar do PSD não é o único a suspeitar do que realmente terá acontecido no gabinete vandalizado há mês e meio e de onde desapareceram documentos que André Ventura considerou essenciais sobre o ministro da Administração Interna e o primeiro-ministro e que tinha preparado para a prometida comissão parlamentar de inquérito ao caso Neves/PJ.
A credibilidade do Chega ficaria "menos dois" caso se apurasse que o episódio foi simulado, arriscou Hugo Soares na SIC Notícias. E é neste contexto anormal, nascido na campanha eleitoral com o refluxo gástrico de Ventura que juntou ambulâncias e suspeitas de treta, que se somam suspeitas sobre se o crime na Assembleia da República terá sido real ou inventado.
Se for real é gravíssimo, se for inventado é mais grave que gravíssimo e se ficar tudo em águas de bacalhau é como dar trigo aos pardais, sendo que os pardais são o lamaçal. Falhar nesta investigação é bingo para o populismo do Chega, a vítima do sistema, da Justiça do costume, do centrão e da pouca vergonha, que só lá ía com três Salazares. Convém que PJ e Ministério Público se despachem a apurar quem vandalizou o gabinete do líder da oposição para roubar documentos comprometedores para o Governo e não será um trabalho de Hércules saber quem entrou na Assembleia da República nas horas-chave que antecederam o crime, num palácio vigiado, com PSP e GNR, segurança e protocolos de entrada e de saída.
É vital para a saúde democrática do país apurar o que se passou. Se se concluir que alguém de outro partido ou ao serviço de outro partido roubou a documentação, Ventura passará num ápice a rating A+. Se se apurar que houve simulação por parte de alguém ligado ao Chega, Ventura leva um tiro no porta-aviões. E um nim seria insuportável.
O contexto é muito nublado, com Ventura a preparar-se para investigar a PJ (comissão de inquérito) e a PJ a preparar-se para ouvir Ventura (assalto). O Ministério Público tem em mãos três inquéritos relacionados com os casos polémicos que envolvem Luís Neves e também uma investigação sobre a invasão e roubo no gabinete do líder do Chega. Segundo o Procurador-Geral, Amadeu Guerra, os inquéritos sobre Neves decorrem "com celeridade" e a investigação sobre o gabinete de Ventura está "com urgência, processada com urgência". Politicamente, a ordem de prioridades com que um e outro caso for despachado não será indiferente.
André Ventura vai empurrando para debaixo do tapete e assobiando para o ar, enquanto festeja a vitória da ultrarradical AFD com argúcia: “Nem Portugal é a Alemanha, nem o Chega é a AFD”. Com Le Pen (que os expulsou dos Patriotas no Parlamento Europeu) e Meloni (um bem sucedido processo de moderação em curso) não se brinca. Até ver, esqueçam lá os três Salazares.
Até para a semana."

https://expresso.pt/.../2026-09-09-e-agora-vamos-ao...

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