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terça-feira, 1 de setembro de 2026

A entrada formal de Ronald:

Em finais de 2023, como detentor de 30% do grupo Medialivre, através da holding CR7, S.A., colocou o atleta mais célebre do país no centro da engrenagem que dita a agenda política e acelera a ascensão do populismo em Portugal. Sob o teto financeiro garantido pelo consórcio de Ronaldo operam marcas como o Correio da Manhã, a CMTV e o canal NOW, órgãos que se transformaram nos motores principais da atual campanha de desgaste contra o Ministro da Administração Interna, Luís Neves.

Esta influência estendeu-se diretamente ao desporto em maio de 2026, data em que Ronaldo adquiriu uma participação relevante na plataforma digital de streaming LiveModeTV. A empresa gerou enorme polémica durante o Mundial de 2026 ao transmitir dezenas de jogos gratuitamente no YouTube, subvertendo o modelo de direitos de transmissão tradicional. Esta jogada empresarial revela que Ronaldo transportou para o mundo corporativo a mesma apetência predatória que o tornou único nos relvados: tal como na grande área ele não precisa de construir a jogada, bastando-lhe antecipar-se aos defesas para encostar a bola à rede, no mundo dos negócios Ronaldo atua como o finalizador implacável que aproveita as falhas estruturais do mercado para monopolizar o espaço público. Longe de ser um mero investimento passivo, este ecossistema serve um duplo propósito comercial e de blindagem de imagem: ao controlar os canais de distribuição digitais que transmitem o futebol, o próprio Ronaldo passa a deter as plataformas que avaliam, narram e geram o conteúdo sobre o seu desempenho como jogador. É o controlo absoluto da narrativa desportiva em proveito próprio, numa estratégia que visa ditar quem é criticado e quem é protegido.
Analisar o império de Ronaldo exige decifrar as suas motivações. Seria ingénuo procurar na sua conduta uma agenda ideológica clássica, uma filiação partidária oculta ou o desejo de se tornar um líder político tradicional. As suas motivações são estritamente pragmáticas e corporativas: a expansão do poder pessoal e a maximização do lucro através da economia da atenção. O desígnio de Ronaldo é a construção de uma soberania privada que flutua acima das leis dos Estados e do escrutínio dos parlamentos. A sua aliança indireta com as forças que fraturam o sistema não nasce de uma simpatia pelo extremismo, mas sim da perceção de que o ruído, a polarização e o escândalo são os ativos mais rentáveis do século XXI. Ao financiar as ferramentas do populismo, Ronaldo não procura governar; procura garantir que nenhum governo, seja de que quadrante for, tenha a força institucional necessária para questionar os seus negócios, o seu património ou a sua imunidade.
Esta blindagem torna-se ainda mais evidente quando se traça um paralelo factual entre os percursos de Cristiano Ronaldo e de Luís Neves no que toca ao cumprimento da lei. Ambos partilham o facto de terem estado sob o foco da justiça por irregularidades financeiras. Luís Neves enfrenta um escrutínio severo por falhas administrativas e omissões na sua declaração pública de património validadas pelo Tribunal de Contas. Por sua vez, Cristiano Ronaldo foi formalmente condenado pela Justiça e pelo Fisco de Espanha devido a uma fraude fiscal maciça associada à ocultação de rendimentos dos seus direitos de imagem. O futebolista aceitou uma pena suspensa de 23 meses de prisão e o pagamento de uma multa de 18,8 milhões de euros para encerrar o processo-crime. No entanto, enquanto os erros de Luís Neves são expostos em horário nobre de forma implacável pelos órgãos da Medialivre, o passado criminal financeiro de Ronaldo é protegido pelo esquecimento mediático, criando dois pesos e duas medidas na praça pública.
É neste duplo padrão que a ligação à figura de Donald Trump se revela despida de qualquer inocência. O decreto assinado pelo presidente norte-americano para classificar o movimento descentralizado "Antifa" como uma organização terrorista doméstica não foi uma medida de segurança, mas sim um guião político. Trump inaugurou a era em que o topo do Estado utiliza o rótulo de "terrorista" para criminalizar a oposição, criar um inimigo interno e desviar as atenções dos seus próprios escândalos judiciais. Em Portugal, a engrenagem mimetiza o método: o canal NOW alimenta o horário nobre com e-mails privados de Neves e, minutos depois, o Chega utiliza essas mesmas peças televisivas para exigir comissões de inquérito, ameaçar com moções de censura e tentar forçar a demissão do governante. A importação da cartilha de Trump serve para cobrar a fatura histórica a Luís Neves que, enquanto Diretor da Polícia Judiciária, desmantelou as narrativas que associavam a imigração ao crime e investigou as células radicais nacionalistas. Usa-se a falha administrativa legítima do ministro para validar a agenda populista americana em solo nacional.
Diante deste cenário, o cidadão é obrigado a tomar uma posição e responder a um dilema ético profundo: o que pesa mais na balança da sobrevivência democrática? As falhas administrativas de Luís Neves ou o império mediático de Cristiano Ronaldo? As falhas de Neves, por mais graves e repreensíveis que sejam do ponto de vista ético e republicano, esgotam-se na sua pessoa e no seu mandato político, são os erros contidos de um homem num cargo público. Por outro lado, o impacto dos investimentos de Cristiano Ronaldo é estrutural, sistémico e de longo prazo. Ao colocar a sua fortuna ao serviço de um ecossistema mediático que vive de degradar o debate público, de asfixiar as figuras do Estado e de controlar a narrativa sobre si próprio para gerar cliques e audiências, Ronaldo financia a erosão dos alicerces democráticos do país. O dinheiro de CR7 dá oxigénio e viabilidade económica às plataformas que a extrema-direita utiliza para crescer.

Entre o governante que falha na gestão dos bens do Estado e o investidor global condenado por fraude que financia a máquina que deforma a perceção da realidade de um povo, o peso do segundo é infinitamente mais destrutivo. Luís Neves deve ser escrutinado e responsabilizado pelos seus atos materiais. Mas a complacência nacional perante os negócios de Cristiano Ronaldo é um sintoma de cegueira coletiva. A gratidão desportiva não pode continuar a servir de salvo-conduto para que o homem mais influente do país lucre com a engenharia que fratura a sociedade. Quando os golos terminarem, o que restará de Portugal será o estado das suas instituições e, nesse campeonato, o capital desregulado está a vencer a democracia por goleada.

Andreia Pinto Ferreira 

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