
(Quase) Todos os mais-velhos têm tendência para resmungarem que no “seu tempo” é que era bom, que as coisas vão para pior, etc… Não há qualquer razão para que eu seja diferente. E explico porque sinto este ambiente degenerado.
Quando eu estava nos vintes preparou-se em Portugal o ciclo comemorativo dos 500 anos dos Descobrimentos. Para dirigir essa tarefa (identitária) o então primeiro-ministro escolheu Vasco da Graça Moura, um grande “Homem de Cultura” (como é habitual dizer) e que soube cumprir com excelência. Depois, o novo primeiro-ministro Guterres substitui-o por António Manuel Hespanha, um grande historiador, que inflectiu um pouco o pendor das acções comemorativas, realizando um mandato magnífico.
Décadas passaram. Aproximando-se o cinquentenário da data fundacional do regime, para dirigir as devidas comemorações o primeiro-ministro Costa convidou Adão e Silva, renomado… publicista socratista. O mandato era longo, os meios disponíveis vastos. Todos podemos opinar sobre o que foi feito.
Entretanto Costa fez ascender esse Adão e Silva a ministro da Cultura. Face aos 500 anos de nascimento de Camões – também momento identitário pois há dois séculos anos que Camões vem sendo dito “poeta nacional” – Adão e Silva… esqueceu-se de nomear a comissão comemorativa, fazendo-o in extremis já sob a pressão da imprensa.
Agora apresta-se o país para celebrar os 900 anos da invenção de Portugal. Para isso dirigir o primeiro-ministro Montenegro escolhe Paulo Portas. Antigo activo jornalista – a minha geração lembra-se como ele nada apoiou a introdução de medicamentos genéricos no país, por exemplo. Antigo irrevogável ministro. Actual ágil comentador televisivo, muito competente docente de relações internacionais e, consta que excelente, intermediário de negócios.
Por estar eu velhote, já nos 62 anos, tudo isto me parece mesmo a tal degenerescência.
jpt,
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