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quinta-feira, 2 de julho de 2026

O AVISO ESTAVA FEITO:

Durante meses, multiplicaram-se os sinais de que a guerra na Ucrânia estava a entrar numa nova fase. Os ataques de longa distância contra alvos na Crimeia, em território controlado pela Rússia desde 2014, e mesmo contra infraestruturas energéticas em regiões próximas de Moscovo, representaram uma escalada evidente. A questão nunca foi se haveria resposta. A questão era apenas quando e com que intensidade.

Qualquer processo sério de paz exige, antes de mais, que cada uma das partes reconheça os limites das suas capacidades militares. A história demonstra que as guerras terminam quando os adversários compreendem que os objetivos políticos deixaram de ser alcançáveis pela via das armas. Enquanto essa perceção não existir, o conflito tende apenas a agravar-se.
É igualmente difícil ignorar que a Ucrânia só conseguiu manter o esforço de guerra graças ao apoio financeiro, militar e logístico dos seus aliados ocidentais, em particular dos países europeus e dos Estados Unidos. Sem esse apoio, a capacidade de resistência de Kiev teria sido muito menor. Essa é uma constatação reconhecida por responsáveis ucranianos e pelos próprios governos que fornecem armamento.
Ao mesmo tempo, tornam-se cada vez mais visíveis as dificuldades da Ucrânia em matéria de recursos humanos. A mobilização enfrenta crescente resistência social, sucedem-se relatos de evasão ao recrutamento e de cidadãos que procuram evitar o serviço militar. Independentemente da leitura política que se faça destes factos, eles mostram o desgaste provocado por mais de quatro anos de guerra.
É neste contexto que a estratégia de intensificar ataques em profundidade no território controlado pela Rússia é um erro estratégico de Kiev. A imagem é simples: quem decide provocar um urso no interior do seu próprio reduto deve estar preparado para a força da resposta. A Rússia continua a possuir uma capacidade militar significativamente superior em meios de longo alcance e tem demonstrado repetidamente que está disposta a utilizá-los em larga escala. O preço dessas respostas recai, inevitavelmente, sobre a população civil ucraniana.
O ataque desta noite parece ilustrar essa realidade. As autoridades de Kiev tinham advertido para a possibilidade de uma ofensiva de grande dimensão, resultado das informações recolhidas pelos seus serviços de inteligência e pelos aliados. Na guerra moderna, as movimentações de grandes meios militares são cada vez mais difíceis de ocultar. Satélites de observação, vigilância eletrónica e outras capacidades de inteligência permitem detetar preparativos com antecedência razoável. Conhecer, porém, não significa conseguir impedir.
A questão que importa colocar é outra: se era previsível que uma determinada escalada provocaria uma resposta igualmente ou ainda mais intensa, terá sido prudente continuar a elevar o nível da confrontação? A resposta pertence aos decisores políticos e militares, mas os resultados estão hoje à vista.
Não pode excluir-se que esta vaga de ataques constitua apenas uma fase de uma campanha mais prolongada. A Rússia tem aumentado a sua capacidade de produção de drones e mísseis, e vários analistas admitem que Moscovo possa manter uma pressão elevada durante semanas. Não significa que exista confirmação de novos ataques iminentes, mas demonstra que a capacidade para continuar esta estratégia permanece significativa.
É talvez chegado o momento de Kiev reavaliar a lógica da escalada. A retórica de "levar a guerra até Moscovo" pode satisfazer objetivos políticos e simbólicos, mas encerra também o risco de desencadear respostas cuja principal vítima acaba por ser a própria população ucraniana. A paz dificilmente nascerá de sucessivas demonstrações de força; nascerá, quando nascer, do reconhecimento dos limites de cada um dos beligerantes.
O aviso estava feito. A questão é saber se alguém quis realmente escutá-lo.
Bom dia!
Informações de IA
 2 h
 

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