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sábado, 6 de junho de 2026

UMA HISTORIETA DE MAFFIOSI...

O futebol é uma escola de virtudes, dizem.
Uma verdade que em Portugal é ainda mais verdadeira.
Gosto de futebol, confesso. Há mais de 70 anos, desde os tempos da minha Monforte da Beira natal, onde o meu pai e os meus tios se agarravam à Telefunken a bateria - o luxo da electricidade só chegaria depois de Abril de 1974 - sofrendo com os relatos através dos quais haveriam de saber que o seu Sporting seria tetracampeão. Um feito que apanhei apenas de raspão.
Diziam que tinha algum jeito para o pontapé na bola, pelo menos lá nos terrenos pedregosos beirões. Mas depois converti-me ao andebol e acabei por me divertir à grande com a malta do CDUL, que ainda hoje se reúne frequentemente. Chegámos a fazer um estágio na primeira divisão, experiência que já não vivi porque o jornalismo e a entrega total ao 25 de Abril me afastaram. Dediquei-me à corrida e à natação, e por aí ando ainda hoje.
Mas não divaguemos. O que me traz aqui é a frutuosa cooperação entre dois rapazes da bola e do dinheiro, mais do dinheiro que da bola, entre os quais não pode haver asserção mais apropriada do que aquela que diz que uma mão lava a outra.
Um é André Villas-Boas, um rapaz nascido em berço de boas famílias da Foz, no Porto, coleccionador de automóveis de classe, que foi treinador diletante aprendendo o ofício com mestre Mourinho, o que diz muita coisa. Treinador, contudo, não dava o mesmo status correspondente aos elevados princípios familiares. Ser presidente de clube é que era.
Calhou ser o FC Porto. Vai daí, espetou uma faca nas costas do padrinho, Pinto da Costa, cuidando que para ser um capo mafioso basta eliminar quem ocupa o lugar. Porém, cedo revelou que não passará de um aprendiz boçal, sobretudo devido à mediocridade cultural e intelectual acima da média, o que não era o caso da sua vítima.
Então, com pouco jeito para o ofício e denunciando-se de maneira grosseira ao tentar restaurar os métodos mafiosos bem oleados do seu antecessor, o rapazola tomou-se de amores/ódios pelo presidente do Sporting, quiçá um fetiche que Freud explicaria, identificando-o como o obstáculo a abater para chegar ao topo dos topos da sua missão. Conseguiu, talvez transitoriamente, mas confia pouco nos méritos do feito. E agora não olha a meios para os consolidar jogando demasiado às claras aquele futebol que o esfaqueado praticava nos bastidores.
O outro personagem desta historieta é o senhor Hakam Safi, turco de nascença, com uma modesta fortuna de 750 milhões de dólares e negócios anuais de mil milhões - segundo a revista Forbs, que é quem passa as cartas de alforria nestes assuntos da abundância material.
Poderia pensar-se que o senhor Safi acumulou tais poupanças aos cinquenta e poucos anos trabalhando sol-a-sol, e no duro, lá para as terras agrestes da Capadócia. Nada disso. Afinal, tem uns dotes especiais para o sector mineiro, ou não fossem as matérias-primas as chaves das guerras de hoje. E, numa combinação virtuosa e meritória, dedica-se a explorar portos marítimos e as suas enormes potencialidades de trabalho ao mesmo tempo honesto, transparente e rentável.
Tal como o rapazola Vilas-Boas, o senhor Safi também deseja o estatuto de presidente de clube, no seu caso o Fenerbace de Istambul. Para arrebanhar votos nas eleições que estão à porta garantiu que vai contratar Luíz Suárez, um colombiano com muito jeito para marcar golos a sério e que, com a camisola do Sporting, com quem tem contrato até 2031, foi o melhor marcador deste ano do campeonato português. Os outros competidores ficaram a perder de vista. Um craque.
O milionário turco diz que Suarez disse que sim às suas pretensões, que isto das validades dos contratos é coisa que não se usa em futebol e tantas outras coisas.
Ora Suarez é uma dor de cabeça para Vilas-Boas enquanto vestir a camisola do Sporting. O azul e amarelo do Fenerbace poderá ser ouro sobre azul para o inquieto chefe dos azuis. Pode até acontecer que, caso Suarez por cá se mantenha, nem as manigâncias à sorrelfa poderão fazer com que se repita o milagre deste ano.
Ora acontece que o rapazote Villas-Boas e o senhor Safi são amigos.
E se Suarez é um pesadelo para o aprendiz de padrinho nortenho e pode fazer a felicidade do ricalhaço turco, esta amizade é de ouro.
Dizem os jornais que o senhor Safi, que parece ser visita do rapaz Villas-Boas na Foz, "agradeceu" ao amigo a contribuição dada para a iniciativa de recrutamento do goleador alheio. Não se sabe muito bem, e com objectividade, o que o próspero turco agradeceu ao rapaz com tão bons princípios familiares. O que talvez possa deduzir-se é que a presença de Suarez no Fenerbace poupará muitas noites de insónia ao candidato a padrinho aprendiz de Pinto da Costa. Ao mesmo tempo permite-lhe esmurrar o nariz do seu fetiche Varandas.
É verdade que os mafiosos são rivais, do ponto de vista digamos que institucional. Mas prezam a amizade e a honra acima de tudo, como princípios inerentes às suas profícuas missões comuns.
Ora honra é coisa que não falta no futebol português. E o rapazinho da Foz demonstrou, em pouco tempo, que é um dos maiores contribuintes líquidos de tal virtude. Honra não faltará também ao senhor Safi, do alto dos seus limpíssimos negócios de mil milhões de dólares por ano.
O que dois mafiosos não fazem pela amizade.

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