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terça-feira, 30 de junho de 2026

Em defesa do Liberalismo:

Ouvi há dias falar sobre um livro recente do académico britânico Adrian Wooldridge, que trata de um tema que devia ser mais conhecido e estudado, sobre o qual demasiada gente opina baseada num “ouvi dizer” ou um “parece-me-que”. O título é “The revolutionary center: the lost genius of Liberalism”.

Em traços gerais o autor elabora sobre o facto de que o liberalismo ser frequentemente confundido com o “centro”. Na realidade e desde o seu surgimento no século XVIII, o liberalismo foi uma filosofia profundamente revolucionária, pois rompeu com quase todas as formas tradicionais de autoridade, tais como o poder absoluto dos reis, os privilégios da aristocracia, o monopólio religioso sobre a verdade, as restrições ao comércio e à iniciativa individual, assim como à ideia de que a posição social deveria ser determinada pelo nascimento. Com o liberalismo foram instituídos os direitos individuais, os governos constitucionais, a liberdade de expressão, a economia de mercado, a mobilidade social baseada no mérito e, apenas desde então, no mundo livre, passou a existir a tolerância perante opiniões divergentes.

Toda a modernidade é inseparável do liberalismo. Desde a explosão da inovação científica, ao crescimento económico sustentado, à redução da pobreza, ao aparecimento de uma vasta classe média, ao desenvolvimento de instituições estáveis e à proteção dos direitos civis, todo o chão do que conhecemos como mundo moderno desenvolveu-se depois dessa revolução.

Na segunda parte do livro, Wooldridge procura explicar porque é que o liberalismo parece hoje enfraquecido e avança com dois tipos de problemas. Parte desse enfraquecimento resulta dos ataques externos a que está sujeito, sejam oriundos dos populismos nacionalistas (alguns que se assumem mesmo como iliberais), dos regimes autoritários apostados em acabar com a ordem liberal (China, Rússia, Irão…), de movimentos identitários de esquerda, e também de críticos anticapitalistas, muitos deles saudosistas nostálgicos do socialismo científico que colapsou.

A decadência interna é a outra ordem de factores que explica o enfraquecimento do liberalismo. Segundo Wooldridge a maior culpa é dos próprios liberais que passaram a defender o respectivo status quo, a proteger elites educativas e profissionais, a aceitar burocracias excessivas, a abandonar a defesa vigorosa da liberdade de expressão e a tratar os adversários políticos com desprezo moral.

Por tudo isto, um movimento originalmente revolucionário tornou-se conservador e acomodado.

A solução que apresenta passa por recuperar o “centro revolucionário”, o que não significa fazer compromissos entre esquerda e direita, mas sim a recuperar a tradição liberal. Para isso, deve continuar-se a questionar constantemente o poder, a reformar instituições antes que estas apodreçam, aceitar a competição de ideias, favorecer o mérito em vez dos privilégios e a defender simultaneamente liberdade económica e igualdade perante a lei.

O autor afirma igualmente que o capitalismo precisa de ser reformado no sentido de combater monopólios, reduzir privilégios herdados, reforçar a mobilidade social e permitir que os mercados sejam verdadeiramente competitivos.

A título de resumo, o argumento do livro pode resumir-se numa frase: o liberalismo não venceu porque era moderado; venceu porque foi revolucionário. E só sobreviverá se voltar a ser suficientemente ousado para reformar continuamente as instituições que ele próprio criou.

Da minha lavra acrescento que (i) ideologias diversas e (ii) interesses em preservar privilégios adquiridos, esforçam-se arduamente em difundir narrativas demoníacas sobre o liberalismo. Esse esforço tem alcançado demasiado sucesso, basta ver como tantas pessoas com acesso a muita informação, mas não necessariamente bem informadas, apostam as fichas todas contra os princípios que permitiram criar a modernidade. Defender uma nova vaga de liberalismo contra os privilégios herdados, contra os monopólios, que permita reforçar a mobilidade social e que os mercados sejam verdadeiramente competitivos, são formas de defender o liberalismo. Reacções alérgicas, impulsos instintivos de ataque e o recurso permanente a chavões vazios ouvidos algures, são tristes e frequentes manifestações a que se assiste sempre que alguém se atreve a defender o óbvio, e também, a evidência dos efeitos da luta travada pelos populistas, pelos privilegiados e pelos tiranos autoritários. Cabe a cada um saber escolher de que lado da barricada pretende ficar.

 Paulo Sousa,

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