Volodymyr Zelensky publicou uma carta aberta dirigida a Vladimir Putin. Um documento apresentado como uma mão estendida. Um convite ao diálogo. Uma abertura diplomática. Em teoria.
Na prática, é um pouco como convidar o seu vizinho para tomar um café depois de lhe colar um cartaz à porta a rotulá-lo como o criminoso do século.
O texto é fascinante. Por um lado, Zelensky afirma que quer sentar-se à mesa das negociações. Por outro, apresenta um inventário completo das acusações contra o Kremlin: agressão, crimes, responsabilidade histórica, destruição, sofrimento. Ao lê-lo, procura-se uma proposta de compromisso. Em vez disso, encontra-se uma acusação.
É uma regra tão antiga como a própria diplomacia: quando se procura genuinamente um acordo, geralmente evita-se iniciar as discussões com um sermão. Mesmo as negociações de paz mais difíceis da história basearam-se num mínimo de reconhecimento mútuo. Aqui, o objetivo parece diferente: construir uma narrativa.
A mensagem provavelmente não se destina a Moscovo. Destina-se a Bruxelas, Londres, Paris, Berlim e Washington.
Porque ninguém em Kiev acredita seriamente que uma carta deste tipo mude a posição do Kremlin. Por outro lado, permite-lhes produzir uma imagem perfeita para os meios de comunicação social: "Vejam, estendemos um ramo de oliveira. Se a guerra continuar, a culpa não é nossa."
Mais um exercício de relações públicas do que uma iniciativa diplomática.
Além disso, a Ucrânia há muito que deixou de operar num vazio estratégico. As suas principais orientações políticas, militares e financeiras são constantemente discutidas com os seus parceiros ocidentais. As declarações do G7, da NATO e do Conselho Europeu reiteram incansavelmente o seu apoio a Kiev e o seu empenho em manter a pressão sobre Moscovo. Seria, por isso, surpreendente se uma carta de tamanha importância fosse publicada sem a prévia aprovação dos principais aliados.
Entretanto, uma questão permanece visivelmente ausente do debate: quem beneficia realmente com a continuação da guerra?
Certamente não os ucranianos, mobilizados à força há anos.
Certamente não as famílias que veem partir toda uma geração.
Certamente não a economia ucraniana, que se encontra em estado crítico.
Por outro lado, a guerra mantém um fluxo colossal de ajuda ocidental. Desde 2022, centenas de milhares de milhões de euros e dólares foram comprometidos pelos Estados Unidos, pela União Europeia, pelo Banco Mundial e pelo FMI. Esta inesperada verba alimenta também um sistema político regularmente manchado por escândalos de corrupção que envolvem as autoridades ucranianas ou os seus associados. Os relatórios do Tribunal de Contas Europeu, do OLAF, da Transparência Internacional e as investigações recorrentes do NABU recordam-nos que o problema nunca desapareceu.
O verdadeiro propósito desta carta torna-se então mais claro: não convencer Putin, mas convencer a opinião pública ocidental de que Kiev continua a ser o campo da paz.
Uma paz condicional, claro. Uma paz precedida de uma acusação.
Uma paz que se assemelha muito a uma campanha de relações públicas.
Porque quando se quer realmente negociar, escreve-se ao adversário. Quando o objetivo principal é vencer a batalha mediática, escreve-se ao público. E deixa-se uma cópia com o adversário para manter as aparências.
(Por BPartisans)

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