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domingo, 3 de maio de 2026

VASCO GONÇALVES, um Homem de Abril, Um Legado de Coragem:

Hoje evoco os 105 anos do nascimento de Vasco Gonçalves - e fazê-lo não é apenas um gesto de memória, mas um ato de justiça. Militar de Abril, protagonista de um dos períodos mais intensos e decisivos da nossa história contemporânea, foi um homem moldado pela firmeza, pela entrega e por um compromisso inabalável com o povo português.

No rescaldo da Revolução dos Cravos, quando Portugal emergia, ainda atónito, de décadas de ditadura, Vasco Gonçalves ousou acreditar que o país podia reinventar-se - e teve a coragem rara de transformar essa crença em ação. Durante o seu breve, mas profundamente marcante exercício de funções como primeiro-ministro, lançou as bases de mudanças estruturais que redesenharam o horizonte nacional.
Sob a sua liderança, avançaram processos de grande alcance histórico: a nacionalização da banca e dos seguros, que procurou devolver ao interesse coletivo o controlo de setores estratégicos; a reforma agrária no Alentejo, que rompeu com séculos de concentração fundiária e devolveu a terra a quem a trabalhava; a consagração de direitos laborais fundamentais, como o salário mínimo nacional e a proteção dos trabalhadores; e a expansão do acesso à educação e à saúde, pilares de uma sociedade mais justa e inclusiva.
Foi uma figura incontornável: amado com fervor por muitos, temido ou contestado por outros, mas impossível de ignorar. Pagou o preço da sua ousadia com incompreensões, críticas e ataques, num tempo em que o rumo do país estava longe de ser consensual. Ainda assim, nunca cedeu no essencial - manteve-se fiel à sua visão de um Portugal mais igualitário, livre e solidário.
Não procurou a glória pessoal, nem o conforto do consenso fácil. Procurou, antes, servir um povo em transformação, num dos momentos mais exigentes da sua história. E é precisamente por isso que o seu nome permanece - não apenas nos livros, mas na consciência coletiva de um país que continua a interrogar-se sobre o seu próprio caminho.
Hoje, mais do que nunca, importa recordar o exemplo de quem acreditou na força da democracia participativa e na possibilidade real de transformação social. Vasco Gonçalves foi, acima de tudo, um construtor de pontes - entre o sonho e a realidade, entre a utopia e a prática. A pergunta que fica é: Portugal e os portugueses não estariam melhor hoje, na sua vida económica, social e estrutural se - depois - uma parte das politicas que se promoveram não tivessem sido anuladas politicamente? Esta pergunta terá respostas diferentes, dependendo da forma de analisar a evolução portuguesa. Mas há um facto incontestável: foram algumas das medidas de Vasco Gonçalves que "seguraram" a democracia portuguesa e não permitiram o retrocesso politico, nem a falência económica da época.
Por tudo isso, merece não apenas a nossa lembrança, mas o nosso reconhecimento profundo e duradouro.
Obrigado, Vasco.

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