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quarta-feira, 20 de maio de 2026

SOMBRAS DA HISTÓRIA:

A História nunca desaparece. Muda de roupa, troca de linguagem, adapta-se aos interesses do presente - mas permanece, subterrânea e muitas vezes incómoda. Há sombras históricas que os vencedores preferem apagar, os derrotados preferem esquecer e os fanáticos de todos os lados preferem manipular. Entre essas sombras está uma das mais controversas e menos discutidas páginas do século XX: a relação pragmática, circunstancial e politicamente útil entre sectores do sionismo alemão e o regime nazi nos anos 30.

O Acordo Haavara, assinado em 1933, não foi um mito conspirativo nem uma invenção propagandística. Foi um facto histórico. Um entendimento entre a Alemanha nazi e organizações sionistas alemãs que permitiu a transferência de milhares de judeus para a Palestina sob mandato britânico, juntamente com parte dos seus bens e capitais. Cerca de 60 mil judeus emigraram ao abrigo desse mecanismo até 1939.
O objectivo alemão era evidente: expulsar judeus da Alemanha, aliviar a pressão internacional provocada pelo boicote económico anti-nazi e reforçar a economia alemã através da exportação de produtos para a Palestina. O objectivo sionista também era claro: acelerar o projecto de construção de um futuro Estado judaico, reforçando a presença demográfica, económica e organizacional judaica naquele território.
Nada disto absolve o nazismo. Nada disto relativiza o horror do Holocausto. Nada disto diminui o sofrimento histórico do povo judeu. Mas ignorar estes factos também não ajuda a compreender as contradições da História nem os mecanismos pragmáticos através dos quais os grandes projectos políticos se constroem.
A História raramente é moralmente pura. É quase sempre feita de sobrevivência, oportunismo, cálculo e alianças improváveis.
Figuras como o judeu Haim Arlosoroff defenderam o acordo como uma forma de salvar vidas e fortalecer a comunidade judaica sionista na Palestina. Do lado nazi, elementos como Leopold von Mildenstein chegaram a visitar a Palestina com autorização do regime hitleriano, numa tentativa de explorar a viabilidade da emigração judaica organizada. Foi um casamento de conveniência entre dois projetos profundamente diferentes, mas temporariamente convergentes em determinados interesses. Um episódio incómodo para narrativas simplistas. E talvez por isso tão frequentemente remetido para as margens da memória colectiva.
Mas o verdadeiro problema não está apenas no passado. Está na incapacidade contemporânea de aprender com ele. Hoje, o Médio Oriente vive à beira de um abismo. O conflito entre Israel e Irão deixou de ser apenas uma disputa regional. Tornou-se um eixo de tensão global que arrasta consigo o mundo árabe, as grandes potências, os interesses energéticos, os extremismos religiosos e os fantasmas geopolíticos do século XX.
E no centro desta espiral continua a existir uma questão que o mundo se recusa verdadeiramente a resolver: a relação entre segurança, identidade nacional, religião e ocupação territorial.
Israel nasceu sob o trauma absoluto do Holocausto e sob a necessidade de garantir um território para o povo judeu. Essa realidade histórica foi incontornável. Mas também é incontornável reconhecer que, ao longo das décadas, o Estado israelita foi progressivamente capturado por sectores ultranacionalistas, religiosos e militaristas que transformaram a ideia de defesa numa lógica permanente de confrontação.
A ocupação prolongada de territórios palestinianos, a expansão contínua dos colonatos, a desumanização recíproca entre povos e a crescente sacralização política do conflito alimentaram um ciclo infernal onde cada violência gera outra violência. O problema é que nenhuma nação consegue viver eternamente cercada pelo medo, sustentada apenas pela superioridade militar e legitimada exclusivamente pela memória do sofrimento passado.
A memória do Holocausto não pode servir como licença moral ilimitada para políticas de opressão. O drama do Médio Oriente tornou-se uma prisão ideológica para todos os envolvidos. Israel parece cada vez mais aprisionado numa visão identitária assente na excepcionalidade histórica e religiosa do “povo escolhido”, quando os sectores extremistas alimentam uma lógica de guerra civilizacional permanente contra tudo o que identificam como ameaça árabe ou islâmica. E quando a política se transforma em teologia armada, a humanidade perde sempre.
Os acontecimentos de Gaza, do sul do Líbano, da Síria ou das tensões com o Irão mostram não apenas destruição física, mas uma degradação moral coletiva. A banalização da morte, a normalização do ódio e a glorificação da vingança estão a destruir gerações inteiras de todos os lados. O mundo já assistiu demasiadas vezes ao resultado desta combinação entre nacionalismo absoluto, medo existencial e fanatismo religioso.
Sabe onde isso pode terminar. Por isso talvez tenha chegado o momento mais difícil - e mais necessário - da história israelita desde 1948: escolher que tipo de Estado quer ser no século XXI. Um Estado permanentemente definido pela guerra, pela identidade religiosa e pelo isolamento regional? Ou uma sociedade plenamente integrada no espaço político, cultural e humano do Médio Oriente contemporâneo?
Nenhuma solução é simples. Nenhuma solução será rápida. E nenhuma solução nascerá do apagamento histórico ou da propaganda emocional de qualquer dos lados. Mas uma coisa parece cada vez mais evidente: o futuro da região não pode continuar dependente de narrativas messiânicas, supremacismo étnico ou guerras eternas alimentadas pela memória do passado.
Os povos da região - judeus, palestinianos, árabes, persas - merecem finalmente viver fora das sombras da História. Porque quando as sombras governam o presente, o futuro transforma-se apenas numa repetição interminável da tragédia.

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