Herdámos da ditadura a intolerância, os interditos e a vocação censória. Uns por falta de idade, outros de memória, outros ainda, por preconceitos, todos parecem dispor de uma lista de matérias que não podem ser objeto de contestação, censura, ironia ou caricatura.
Ai de nós se desistirmos de censurar, gozar, achincalhar ou combater aquilo de que não gostamos, ou até gostamos, ou defender o que entendermos. Quando desistirmos de usar um direito, alguém se encarregará de o revogar.
Ai de nós se não pudermos combater as religiões, os sistemas políticos, as tradições e a liturgia que lhes anda associada! Deus e o Diabo, os homens e os seus interditos, têm de ser discutidos para não sermos escravos de preconceitos, verdades únicas e do statu quo, isto é, para evitarmos ser dissimulados, invertebrados e subservientes.
Combater, ridicularizar e censurar são direitos individuais. Que seria da democracia se não pudéssemos combater o comunismo, o fascismo, o liberalismo, a social-democracia e a própria democracia? Só em ditadura, só com partidos únicos!
Quem resistiria a uma boa gargalhada se visse um general mijar-se na parada, um bispo escorregar no altar e estatelar-se, com a mitra a voar para um lado e o báculo para outro, um aiatola a virar a cara à nudez de uma estátua ou um muçulmano horrorizado com o cheiro ao leitão da Bairrada?
Só faltava não podermos dizer mal dos mortos e vivos, de Mao, Hitler, Estaline, Franco, Enver Hoxha e Salazar; de Trump, Putin, Erdoğan, Netanyahu e Xi Jinping; do Papa, do Rabi de Jerusalém, aiatolas, Imperador do Japão, rei de Inglaterra ou rei dos zulus!
Combater as religiões, o ateísmo, o ceticismo, o agnosticismo ou qualquer doutrina de natureza filosófica, mística ou estética são direitos irrenunciáveis. Convém lembrar aos crentes, de qualquer credo, que, para eles, só o seu deus é verdadeiro e todos os outros são falsos; e, para os ateus, só é falso mais um. E as designadas blasfémia e apostasia não são crimes, são direitos individuais e irrenunciáveis.
Combato o hinduísmo que mantém castas, execra viúvas recasadas e arrasa templos da concorrência; o budismo, que extermina os muçulmanos rohingyas, na Birmânia; o xintoísmo, cujo imperador é demiurgo, que alimentou a escravatura e o nacionalismo fascista do Japão; o evangelismo que, nos EUA, inspira a Ku Klux Klan e o Partido Republicano; o calvinismo, o da despótica teocracia de Basileia; o catolicismo das Cruzadas e Inquisição, o das Filipinas, Polónia, Hungria, Paraguai e Perú; o islamismo, que odeia as mulheres, a música, o toucinho e os direitos humanos, e aprova a pedofilia; e o judaísmo sionista que se julga com direito divino à Palestina.
Caros leitores, vertam aí nos comentários o seu ódio ao ateísmo, à social-democracia e à República, a que sou fiel. Não renuncio aos meus direitos e não os limito aos outros, ao contrário da religião católica que, ainda hoje, em Portugal, nega o direito à morte digna, como na ditadura negava o direito ao divórcio e perseguia o casamento civil.
Quanto a Deus, ele que faça milagres; eu continuo a escrever crónicas.
Carlos Esperança
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