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segunda-feira, 18 de maio de 2026

Conferência de abertura do Fronteiras do Pensamento 2020::

"É fundamental que essas vozes exprimam a intolerância absoluta com a perpetuação do racismo. Eu posso revelar aqui uma coisa que é uma vivência minha, não por mérito nenhum meu. Eu vivi o racismo, porque até eu ter 17 anos eu vivia numa colônia. E uma minoria branca dominava a maioria americana negra e eu juntei-me o movimento de libertação, pela revolução e pela independência realmente.

A razão que me levou a participar deste movimento foi pensar que não poderia ser feliz com um país que tinha esta prática racista tão clara, tão agressiva e tão cotidiana. E eu acho que sem eu nunca perceber, eu passei a pertencer a uma minoria em um país onde 99% dos moçambicanos são negros. Todos os meus dirigentes são negros. Meus amigos, meus colegas de trabalho a maioria são negros.

Eu sou uma pequena gota e não dou conta disso, eu não dou conta porque não tenho raça. Isso acontece porque quem lidera o país representa isso. Eu vejo que quando visito a Europa as pessoas me olham como se fosse que eu tivesse alguma coisa que eu pudesse dizer em solidariedade uma perda qualquer que tive. Não, eu só ganhei. Só tenho a celebrar a vida em que eu lutei e onde chegamos em Moçambique."

Mia Couto 

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