(Luís Rocha, in Facebook, 14/03/2026, Revisão da Estátua)

Lisboa sempre teve personagens curiosas. Houve reis excêntricos, cardeais conspiradores, fadistas dramáticos e ministros que fizeram uma cidade nova com um despacho. Mas poucos personagens urbanos rivalizam com o fenómeno contemporâneo chamado Carlos Moedas, o homem que trouxe para a política municipal uma nova categoria antropológica. O alentejano que queria ser betinho.
E atenção, que isto não é uma crítica ao Alentejo, muito longe disso. O Alentejo é terra de gente sólida, com voz arrastada, mas pensamento profundo e uma capacidade invejável de olhar para a estupidez humana com aquela calma milenar de quem diz: “deixa-o falar que ele já se cansa”.
Mas eis que surge Moedas, produto de um fenómeno raro da evolução sociopolítica portuguesa. O sujeito que nasce em Beja, mas decide que o destino etnográfico é Cascais.
Não é que seja uma coisa importante, mas não conheço ninguém que seja de Beja que tenha perdido o sotaque alentejano. Faz parte. Ter um falar cerrado é identitário e faz parte do orgulho das gentes daquela cidade. Renegar as origens etnográficas para ficar com uma falinha de betinho meio benzoca meio cabrito por desmamar também diz muito sobre a categoria do espécime.
E talvez seja precisamente aqui que começa a chave psicológica da governação cultural lisboeta. Quando alguém passa a vida a tentar provar que pertence a outro clube social, tende a compensar com gestos de grande zelo ideológico.
Mas vamos ao assunto.
Lisboa tem uma série de equipamentos culturais. Teatros, museus, centros de arte, galerias, espaços de programação contemporânea. E esses lugares são dirigidos por pessoas escolhidas, imagine-se o horror, por concursos públicos, avaliadas pelo trabalho e, em teoria, reconduzidas se fizerem um bom serviço.
Ora, recentemente ocorreu um fenómeno administrativo que merece estudo em universidades de ciência política e talvez também em laboratórios de psicologia comportamental.
Todos os responsáveis pelos equipamentos culturais da Câmara Municipal de Lisboa foram reconduzidos. Todos. Uma unanimidade administrativa tão perfeita que faria ciúmes ao comité central da Coreia do Norte.
Mas aqui entra a parte deliciosa. Houve duas pequenas exceções. Duas. Francisco Frazão e Rita Rato.
Coincidência absoluta. Francisco Frazão dirigia o Teatro do Bairro Alto, transformando-o num espaço relevante de programação contemporânea. Rita Rato dirigia o Museu do Aljube. Aquele museu profundamente inconveniente que insiste em recordar que Portugal teve uma ditadura e que houve gente que foi presa, torturada e morta por não alinhar com o regime. Claramente coisas perigosíssimas.
Portanto, o que fez a Câmara? Correu com os dois. Explicação? “Processos de avaliação.” É uma expressão administrativa magnífica. Serve para tudo até para limpar a sujidade.
Dos dois o mais interessante ainda é o caso de Rita Rato. Tinha sido escolhida por concurso público, através de uma maçada burocrática chamada mérito profissional.
E agora foi substituída por uma nomeação direta. Isto não é contraditório. Isto é meritocracia à Moedas. Primeiro faz-se um concurso para parecer civilizado. Depois escolhe-se quem se quer para parecer eficiente.
Mas claro que isto não tem nada a ver com política. Nada mesmo. Seria uma coincidência cósmica que as duas únicas pessoas não reconduzidas estivessem associadas a ambientes culturais progressistas ou à memória antifascista.
Seria também coincidência que o executivo municipal dependa frequentemente de uma espécie de coligação informal com sectores mais entusiasmados da direita grunha lisboeta, daquela fauna política do Coiso, cuja relação com a cultura é aproximadamente equivalente à relação de um javali com a porcelana chinesa. Mas tudo isto são coincidências.Pura meteorologia administrativa.
Enquanto isso, a cidade assiste a momentos gloriosos da gestão Moedas. Tivemos o épico altar da Jornada Mundial da Juventude, que começou como uma obra digna de Ramsés II e acabou reduzido, depois da opinião pública perguntar se aquilo vinha com pirâmides incluídas.
Tivemos também simpáticos contratos mediáticos que alguns vereadores consideraram propaganda institucional paga com dinheiro público.
E o malogrado elevador da Glória que o rapaz nos quer fazer esquecer.
Mas nada disto é tão importante como garantir que os equipamentos culturais de Lisboa não fiquem infestados de ideias perigosas, como pensamento crítico, memória histórica ou programação artística contemporânea. Isso sim, seria um desastre.
No fundo, a política cultural de Lisboa tornou-se simples. Não se fecham teatros. Não se queimam livros. Faz-se algo muito mais elegante. Muda-se quem manda. É uma técnica subtil de jardinagem ideológica. Cortam-se duas plantas mais incómodas, para o jardim parecer bem alinhado quando passam os convidados.
E assim trauteia Lisboa no seu campo de margaridas, em voz de falsete, governada pelo grande campeão da meritocracia municipal, o alentejano que queria ser betinho, homem que descobriu uma nova unidade de valor político.
Não é o euro. Nem o escudo. É o pataco. E infelizmente, no mercado da credibilidade política, da inteligência democrática e da honestidade intelectual, o Moedas, como o próprio nome sugere, parece não valer sequer um.
Beijinhos e até à próxima…
Referências consultadas
https://comunidadeculturaearte.com/francisco-frazao-sai…
https://portaltela.pt/…/frazao-nao-foi-reconduzido-na…
https://pt.wikipedia.org/wiki/Rita_Rato
https://www.tsf.pt/…/diretora-do-museu-do-aljube…
https://www.publico.pt/…/camara-lisboa-recua-altar-jmj…
https://www.abrilabril.pt/…/carlos-moedas-acusado-de…
https://sicnoticias.pt/…/2024-09-17-chamou-me-mentiroso…
https://www.dn.pt/…/chamado-de-mentiroso-moedas-critica…
Do blogue Estátua de Sal
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