
Na localidade de A-dos-Cunhados, em Torres Vedras, André Ventura levou um banho de realidade quando Paulo Maria, proprietário de uma exploração agrícola afectada pela tempestade Kristin, lhe explicou o óbvio:
Só queria salientar um pouco do tema que é muito atual, que é o tema da mão-de-obra. Nós dependemos de mão-de-obra estrangeira a 100%. Na minha empresa, temos 80 colaboradores e só temos um português que é o técnico, o engenheiro. Se hoje os trabalhadores estrangeiros fossem embora, eu fechava a empresa imediatamente.
No fundo, aquilo que Paulo Maria explicou a André Ventura foi o que qualquer empresário francês da construção civil poderia ter explicado a outro populista autoritário nos anos 60: se os portugueses não viessem para cá, não havia ninguém para trabalhar.
Ventura bem pode alegar que o problema são os ilegais, mas a propaganda do CH diz outra coisa. Desde a demonização dos imigrantes do Bangladesh ao papão da ameaça islâmica, que em Portugal pura e simplesmente não existe, a narrativa que o partido propaga e que os seus seguidores replicam nas redes sociais raramente distingue legais de ilegais. Aliás, o “volta para a tua terra” ou o “isto não é o Bangladesh” não fazem essa distinção. Metem tudo no mesmo saco com doses industriais de racismo é xenofobia à mistura.
Quando Rita Matias leu uma lista de nomes de crianças no Parlamento, não fez essa distinção. Limitou-se a instrumentalizar crianças para efeitos de propaganda política, como se essas crianças fossem um perigo para a nossa sociedade. Lembrem-se disso quando os ouvirem dizer “deixem as crianças em paz”. Ou a bater no peito para defender os valores cristãos, que são o exacto aposto da narrativa do ódio e da divisão que Ventura e outros do seu partido promovem diariamente.
O que André Ventura faz quando instrumentaliza os imigrantes vem de uma fórmula antiga e sobejamente conhecida. Trata-se de dividir a sociedade para tentar reinar. É dizer ao português pobre que o imigrante lhe vai levar a bolacha, enquanto alguns financiadores do CH levam pacotes inteiros para as Ilhas Caimão. Sem nunca pensar que, amanhã, poderá ser uma das muitas comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo a sofrer com a mesma canalhice.
20/02/2026 by
Do blogue Aventar
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