Quem tem o telhado aberto, com chuva a entrar em casa, vai esperar dias — ou semanas — até o plano do governo arrancar e aparecer um fiscal do CCDR para avaliar o orçamento e lhe dar até 10.000€ para ir repôr as telhas?
A sério? É esse o plano?
Óptimo, mas a chuva vai ficar à espera até lá?
Isto já não é burocracia...
É surrealismo de quem vive em um mundo paralelo na sua casa com 8 casas de banho.
Hoje apresentaram medidas, sobretudo económicas — as mais fáceis de gerir sem sair do conforto de Lisboa.
Houve medidas positivas, a maioria repetições das que foram feitas na pandemia...moratórias de empréstimos, medidas fiscais, lay-offs, suspensão de pagamentos à Segurança Social.
Tudo isso é necessário numa crise.
Mas cuidado com a propaganda.
Dos 2.500 milhões anunciados, pelo menos 1.500 milhões são empréstimos. Isto não é ajuda. É endividamento sobre quem perdeu tudo.
Pessoas que perderam tudo e a quem o Governo diz: “ajudo-te… com mais dívida”...afinal, até nestas catástrofes a banca tem de ganhar uns trocos.
Para as autarquias, apenas 200 milhões para recuperação de equipamento público — menos do que a descida do IRC oferecida à banca, seguradoras e grandes corporações no ano passado.
Enquanto isso, naquilo que o próprio Governo classifica como situação grave, a prioridade absoluta — proteger os telhados e os bens das pessoas — foi simplesmente adiado.
E com chuva forte a regressar hoje, depois de dias de destruição, o que decide o Governo fazer?
Reunir amanhã com empresários da construção para “projetar soluções urgentes”
Amanhã?
A sério?
Existem meios militares — os próprios militares já o disseram.
Existe capacidade logística para ir às aldeias isoladas, instalar geradores de uso comunitário, fazer segurança dos equipamentos, levar água e alimentos, tapar telhados, transportar lonas e telhas, fazer inventário rápido das casas destruídas e organizar a logística do material onde ele faz falta.
Em estado de calamidade, o Estado tem poder legal para requisitar mão de obra e materiais às empresas de construção, indemnizando-as depois.
Num cenário oficialmente classificado como CALAMIDADE, não é preciso reunião nenhuma.
O Governo pode e deve agir de imediato.
Requisitar meios privados, mobilizar equipas, ativar todo o dispositivo militar e levar recursos e mão de obra onde eles fazem falta — AGORA, não “na próxima semana”.
Não se governa uma calamidade com vídeos encenados para o instagram, invisibilidade de ministros e promessas vagas de que “vamos ter 2000 militares para a semana”...Quando ontem nem 250 tinham.
Estão a gozar com quem?
Temos bombeiros furiosos, com meios, com geradores, com vontade de ajudar — mas sem ordens para sair de Sintra.
Ao mesmo tempo, vemos autarcas desesperados a pedir geradores nas redes sociais enquanto essa ajuda fica parada no lodo da inação governamental.
Há milhares de pessoas sem teto, desesperadas, a subir a telhados por conta própria e a colocar a vida em risco.
Nem vale a pena voltar ao antes, durante e após a tempestade — porque isso simplesmente não existiu.
O que existiu foi incompetência total em todos os momentos desta crise. Nem sequer tinham noção da catástrofe até irem a Leiria.
O IPMA avisa que vai haver ventos SUPERIORES a 160km/h... O SMS enviado à população diz que são ATÉ os 140km/h.
É nestas crises que se mede a qualidade de um Governo. E o que vemos é um governo de truques, ilusionismo e simulações.
Estiveram no terreno 34 mil operacionais.
É verdade.
Mas não foi pelo Governo central — esse esteve invisível.
Foram as estruturas locais, as autarquias, os bombeiros, a Proteção Civil, as forças de segurança e os voluntários que mantiveram o país a funcionar.
Tudo o que dependeu do Governo central foi lento, caótico e encenado.
Em vários locais, os militares só apareceram por iniciativa das autarquias. Em Tomar, por exemplo, houve militares porque havia um quartel e a câmara municipal os foi literalmente buscar.
Coordenação central? Zero.
Estão na cave da Spinumviva à espera que a tempestade passe.
A sorte deste país não é o Governo.
A sorte deste país são as pessoas.
Milhares de voluntários e empresas organizaram-se espontaneamente no distrito de Leiria para levar lonas, plásticos, telhas, geradores e ajuda real.
As pessoas juntaram-se com o apoio das autarquias e estão, literalmente, a fazer o trabalho que um Governo inapto não quis ou não soube fazer.
É impossível não sentir orgulho em quem está no terreno.
Em quem está no estádio de Leiria a gerir ajuda vinda de todo o país. Em quem percebeu que esperar pelo Governo era perder tempo — e casas.
A única coisa que funcionou foi aquilo que não dependia deste Governo.
A REN fez um trabalho exemplar na reposição da energia.
A cruz vermelha foi buscar geradores a Espanha.
As operadoras de telecomunicações subiram antenas e resolveram problemas. As estruturas locais de proteção civil, os autarcas, os bombeiros, as forças de segurança.
...e as pessoas.
As pessoas organizaram-se porque perceberam a autentica incapacidade deste governo.
Isto nunca foi falta de meios.
Foi falta de comando, de decisão, de empatia e de vergonha.
É um Governo de negociatas, avenças e propaganda, mais preocupado com a agência de comunicação e com as grandes fortunas do que em governar.
Isto é o pior Governo que este país já viu.
As estruturas locais ainda funcionam porque não foram eles que as criaram — e porque ainda não tiveram tempo suficiente para as destruir.
É só dar-lhes tempo...
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