Há alguns anos conheci o Rana. Mora numa casa pequena, ele, a mulher e a filha de 7 anos, ali ao lado da minha. Trata-me sempre por mãe. Se tenho lenha no carro, ou uma mala mais pesada, ele aparece, sem ser notado, findas as 10 horas nas estufas de costas dobradas, e apressa-se a carregar, pedindo desculpa, “please, mãe”, é muito “heavy pra mãe”. A filha deles tem olhos cremosos e olha-me com um sorriso, de longe. Contou-me a professora da aldeia que é a mais atenta na escola, e a mais delicada, como se eu não soubesse já. O Rana, por vezes, vai lá cortar a relva, ou podar árvores. Traz-me sempre das estufas framboesas e mirtilos, empilhados junto ao corpo, sob as suas mãos cor de terra seca. Agradece-me sempre, com uma vénia, que imito, desajeitada.
Será que o Rana, ou seria o Prakash, talvez o Singh, estava entre aqueles que nas herdades do Alentejo disseram ao capataz: “Mister, please, com 80 euros não podemos viver.” “Prometeram-nos 700, e residência, legal, não temos nada” – e em troca receberam uma sova de homens fardados com uniformes do Estado, GNR e PSP?
Primo Levi, na sua obra – porventura a mais importante de sempre, pelas reflexões sobre a sua ímpar definição da liberdade (que nega a “natureza” humana) –, faz-nos uma pergunta que percorre, como um rio revolto, toda a sua obra: como decidimos agir, nós, que somos livres?
Ao contrário do que por aí pulula de filosofia pós-moderna, Levi faz a pergunta com intenção de verdade, material. Explica-nos que há dois tipos de pessoas, nas quais se enquadram todos os outros tipos. Os que estão fechados numa prisão-campo de trabalho forçado. E os que são livres. Não é bem aquela liberdade etérea, aquela dúvida existencial, ou narcísica. É a diferença – imagine-se – entre quem está sujeito a um regime de trabalho-prisão, eles, e nós, cá fora, livres.
Quando a Alemanha nazi e os colaboradores, que existiram em toda a Europa – agora, derrotados, em cima de uma pilha de 80 milhões de cadáveres – começaram a fabricar desculpas, “não sabíamos nada”, “tínhamos medo”, “havia muitos bufos”, “a repressão era terrível”, Primo Levi respondeu com uma bomba. Não há como não saber, fomos milhares a resistir, a lutar, a conspirar, a fazer greves, manifestar-nos, esconder, e vocês foram milhões de cobardes que sabiam e não fizeram nada. O medo não pode ser uma desculpa.
Em Se Isto é um Homem, Levi explica como os campos de concentração são campos de trabalho forçado – e essa foi a resposta da burguesia alemã à crise de 1929. Na sequência desse livro, e em resposta a centenas de cartas com pedidos de desculpa (“eu não sabia”, “eu tinha medo”) que recebeu, em A Trégua, Os que Sucumbem e os que se Salvam, Se Não Agora, quando? A Chave de Luneta, entre outros, Levi olhou-os nos olhos e disse-lhes: “Vós, sois culpados.” É tarde. Nem eu nem nenhum dos que estávamos lá dentro, presos, podemos perdoar-vos.
Dentro do arame farpado havia de tudo o que há cá fora: os corajosos e os cobardes, os meigos e os brutos, os mentirosos e os ingénuos, os abnegados e os invejosos, e claro os meios cobardes, os abnegados e brutos, uma palete completa da humanidade, desde os que denunciavam por umas gramas de pão aos que deram umas gramas de pão, os gigantes do afeto, os doentes, os incrédulos. Ele próprio, confessa triste como guardou umas gotas de água da torneira para si, às escondidas. Nenhum, nenhuma, porém, podia decidir. Num campo de trabalho forçado, cercado, vigiado pelas SS ou pela polícia, não se pode decidir. Cabia aos que estavam cá fora, com ou sem medo, agir pelos que estavam lá dentro, presos.
A guerra ao terror e Schengen são a justificação para a militarização da força de trabalho dos migrantes, é a tese que defende um dos mais importantes sociólogos do mundo que estuda imigração. Schengen é “o aparelho ideológico e operativo da fortaleza Europa”, ou seja, é a UE que gere esta força de trabalho imigrante e sem direitos. Se do PS à IL defendem a livre circulação de mão de obra com direitos para colmatar a “falta de mão de obra” bem como as instituições como a Constituição, a PJ ou o Ministério Público a atuar, o vocabulário de quem defende o mundo do trabalho e da cultura não pode ser este. E quando as instituições estiverem todas, como em parte já estão, dominadas pela extrema-direita, vamos apelar a quem? Pessoas não são “mão de obra”.
A resposta solidária deve ser a organização sindical, comissões de trabalhadores, associações culturais e de defesa do património, da terra e da cultura. E ações de rua. Há mais de 24% de migrantes trabalhadores em Portugal. Não são importantes porque “há falta de mão de obra” e “pagam a segurança social”. São importantes porque são pessoas, com quem nós temos de nos associar e garantir que eles, esses 24%, têm todos os direitos civis, políticos e sociais que nós almejamos. Com 24% de força de trabalho migrante (e mais de 60% precária de facto), ou os trabalhadores se unem nas lutas ou todos perderão porque a concorrência é feroz. O trabalhador ilegalizado (migrante) não pode fazer greves, o pacote laboral propõe-se impedir de facto a greve ilegalizando a mesma (com serviços mínimos-máximos). As duas pernas desta luta só podem andar juntas. Porque a minha liberdade não começa onde acaba a tua – isso é puro individualismo. A minha liberdade só será alcançada quando tu fores livre também.
Publicado na Revista Revista Visão e republicado pela Associação Renovar Mouraria.
Raquel Varela

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