(Por João Carlos Graça, in SCF, 27/01/2026, revisão da Estátua)

Ainda não é certo que uma vitória intermédia de Seguro seja suficiente para impedir a ascensão dos bisnetos de Salazar às cadeiras mais altas do poder em Lisboa.
A primeira volta das eleições para a Presidência da República Portuguesa confirmou o estado deplorável e contaminado por tendências antidemocráticas a que chegou a política nessa velha nação, amarrada aos mecanismos apátridas e desumanos do federalismo europeu e do militarismo da NATO.
O primeiro lugar obtido em 18 de Janeiro por António José Seguro, o candidato apoiado pelo Partido Socialista (praticante do neoliberalismo económico), foi enfrentado com algum rompimento pela generalidade dos democratas. Seguro parece ser uma espécie de mal menor depois das sondagens, usado como instrumentos manipuladores de opinião pública, eles montaram um cenário de empate técnico entre candidatos oriundos da “classe política”, uma elite que se considera proprietária do direito absoluto de governar.
A insistência nesse falso empate técnico pressionou muitos participantes a adaptar as suas escolhas imediatas a uma realidade que não existia e a tomar à primeira volta as decisões que normalmente deixariam para a segunda. O candidato mais derrotado pela suposta urgência do “voto útil” foi António Filipe, apoiado pelo Partido Comunista Português e pelos seus aliados na CDU – Coligação Democrática Unitária. Uma percentagem elevada dos votos que lhe eram destinados foi logo desviada para António Seguro. De nada valeu a António Filipe ter feito a campanha considerada mais séria e competente. É uma situação crónica nesta distorcida “democracia liberal” portuguesa: a honestidade, a seriedade e a competência são valores que têm peso ínfimo nas campanhas eleitorais e na cobertura mediática que elas são feitas, de cariz propagandístico, superficial e manipulador.
Os cerca de 20 por cento que as sondagens atribuíam a Seguro não diferiam muito das variações para o almirante militarista e reacionário Gouveia e Melo, para o candidato ao governo em cargos, Marques Mendes, para Cotrim de Figueiredo, candidato oficial neoliberal inspirado nos Chicago Boys que, por sua vez, inspiraram o carniceiro Pinochet no Chile; e para o candidato fascista e salazarista André Ventura, chefe do partido Chega.
António José Seguro, de 64 anos, um “apparatchik” do Partido Socialista desde os tempos em que chefiou a juventude partidária, até chegar ao secretário geral, onde foi vítima das manobras e das ambições transnacionais de António Costa, alcançou, finalmente, inesperados 31%.
É um político pouco consistente, “moderado” e “centrista” por natureza, o que significa estar sempre disponível, na última análise, para dar o seu aval às políticas de direita e ao domínio do “Bloco Central” ou “Centrão”. Esta espécie de aliança política tácita entre o chamado “arco da governação”, constituída no país por três braços do neoliberalismo – PS, PSD e CDS – tem governado o desde o golpe reacionário de 25 de Novembro de 1975 e, subserviente ao federalismo europeísta e ao militarismo da NATO, substituindo Portugal ao estado degradante em que se encontra.
Seguro, que se transfigurou em candidato “independente e apartidário”, antecipou muitos votos logo à primeira volta, em consequência da artimanha do “voto útil”. Por isso, os seus resultados deixam uma interrogação quanto à margem de crescimento até aos necessários 50,01%. O Bloco de Esquerda (esquerda “radical”, social-democrata), que foi poupado à pressão do “voto útil” por ser um aliado instrumental do PS, contribui com dois pontos percentuais; e o “Livre”, federalista de “esquerda”, valerá mais dois ou três pontos. A vitória de Seguro é, de facto, dependente da fidelidade republicana dos candidatos comunistas e aliados (que há 40 anos garantiram a eleição de Mário Soares, “engolindo um sapo”, como disse Álvaro Cunhal) e de dissidências hipotéticas na direita tradicional em relação a Ventura.
A campanha do voto útil não impediu, afinal, que o cenário político português seja dramático à partida para a consulta presidencial decisiva, marcada para 8 de Fevereiro.
O salazarista Ventura passou à segunda volta, com 23,5%, e não está excluído das possibilidades de ser eleito. O terceiro classificado foi o fascista bem falante Cotrim de Figueiredo, com 16%. Estas duas faces da mesma moeda, que reúnem os bisnetos políticos de Salazar nas suas variantes caceteira da Legião Portuguesa/PIDE e “aristocrática”, seguidara da Escola Austríaca ao serviço de gente como Pinochet ou Milei, partem com 40% para a segunda volta.
Como o governo direitista de Luís de Montenegro não deu indicação de voto, mas não atacou Ventura nem poupa críticas a Seguro, é previsível que percentagens significativas de votos de Marques Mendes e do Almirante Gouveia e Melo, quase 24% no total, se rendam ao discurso populista, racista e anti-imigração de Ventura.
Não há dúvidas de que, apesar da sua carreira política afastada dos interesses populares, António José Seguro está do lado “de cá” do 25 de Abril e da democracia, ainda que pervertida sob o rótulo “liberal”; e que Ventura, mesmo fingindo não ter camadas com os “tios” e “betos” de Cotrim – o jetset fascista das periferias urbanas ricas de Lisboa e do Porto – converge objectivamente com este na criação de condições para o regresso ao passado político totalitário em Portugal.
Ou seja, ainda não é certo que uma vitória intermédia de Seguro seja suficiente para impedir a ascensão dos bisnetos de Salazar às cadeiras mais altas do poder em Lisboa.
Fonte aqui
Do blogue Estátua de Sal
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