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domingo, 18 de janeiro de 2026

Face ao que está a acontecer com a Gronelândia:

Como o protagonista não se chama Putin, mas sim Trump, como o país agressor não é a Rússia mas sim os EUA, o discurso altera-se. Substituem-se as certezas pelos silêncios, as condenações por eufemismos, os crimes por “operações”, o direito internacional por “razões de segurança”. Os mesmos acéfalos comentadores que exigiriam tribunais internacionais explicam agora, com voz grave e olhar sabujo e compreensivo, que “a situação é complexa”, que “há antecedentes”, que “não se pode ser ingénuo”.

Esta não é uma ocasional falha de análise. É mesmo uma opção política e moral. Os arautos do chamado Ocidente não reagem em função de princípios, mas sim de alinhamentos e da consequente necessidade de imposturas. O direito internacional não é um corpo normativo universal. É um instrumento seletivo, para ser aplicado com rigor aos inimigos e suspenso quando possa incomodar os vassalos e/ou aliados. As televisões europeias, longe de serem espaços de escrutínio crítico, funcionam como emissores e/ou câmaras de eco dessa hipocrisia estrutural, procurando normalizar o inaceitável sempre que o inaceitável vem do lado "certo".
O escândalo, ignomínia, infâmia, baixeza e opróbrio não está apenas no que é feito, mas sim no que é tolerado, justificado e silenciado. E enquanto este duplo critério persistir, toda a profusa e cínica retórica sobre valores, democracia e ordem internacional não passará de propaganda bem iluminada, ruidosa quando convém e alterada quando mais importa.

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