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quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Anonymous Portugal Internacional:

Emigrei porque a miséria me expulsou — não por causa dos imigrantes Eu emigrei de Portugal há muitos anos. Não foi por capricho.
Não foi porque os imigrantes me roubaram o trabalho.
Não foi porque os muçulmanos me roubaram o futuro.
Eu tive de sair de Portugal porque ganhava miseravelmente mal, porque o desemprego era enorme e porque a miséria batia-me à porta. Tive de sair porque os sucessivos governos do PS, PSD e CDS, com as suas políticas neoliberais, me tiraram o direito a viver com dignidade no meu próprio país.
Vim para a Alemanha. Aqui passei a ganhar praticamente três vezes mais do que ganhava em Portugal. Aqui vivo com dignidade. Aqui tenho acesso a cuidados de saúde sem ter de esperar horas e horas à porta de um hospital. Aqui não sou tratado como descartável.
Durante anos, a minha família perguntava-me:
“Quando é que voltas para Portugal? Temos saudades tuas.”
E dói. As saudades doem. As saudades matam.
Mas eu sempre respondi com a realidade:
Se aqui tenho um nível de vida digno, porque haveria de voltar para Portugal para passar fome, viver na miséria e mendigar cuidados de saúde?
O que me entristece hoje é olhar para Portugal e ver pessoas a atacar imigrantes, esquecendo que há milhões de emigrantes portugueses espalhados pela Europa e pelo mundo. O que me entristece é ver o ódio substituir o pensamento.
O ódio não nasce do nada. O ódio é fruto do analfabetismo político. As pessoas não percebem que estão a ser manipuladas. E essa manipulação tem um objetivo muito concreto: dividir os de baixo para destruir os direitos sociais.
As pessoas queixam-se da falta de habitação e atacam os imigrantes. Mas a crise da habitação não é culpa dos imigrantes. É culpa da especulação, das políticas inflacionistas e, sobretudo, da ausência de um verdadeiro plano nacional de habitação social.
Aqui na Alemanha, pessoas que ganham 2.000, 2.300 ou 2.500 euros conseguem encontrar rendas de 400 ou 500 euros. Um casal que ganha 4.400 ou 4.500 euros por mês consegue viver com dignidade.
Em Portugal, quem ganha 800 ou 900 euros e paga 500 ou 600 de renda passa o resto do mês a comer pão e água.
Mas não fica por aqui. Outro argumento constantemente usado para atacar os imigrantes é a falta de emprego. E mais uma vez, sejamos honestos. Nem o partido CHUNGA, nem a Iniciativa Liberal estão verdadeiramente interessados em resolver o problema do desemprego — nem o da imigração.
A prova é simples: votam contra propostas que visam regularizar imigrantes em situação ilegal, como as apresentadas pelo PCP. Um imigrante regularizado deixa de ser vulnerável, deixa de trabalhar ao negro, deixa de ser explorável, deixa de ser escravo. Passa a ter direitos. E isso não interessa a quem vive da exploração.
É muito fácil para o CHUNGA e para os liberais fazer discursos inflamados contra os imigrantes, enquanto enchem os bolsos à custa do trabalho ilegal e precário. Convém perguntar: quem alimenta o trabalho ilegal? Quem está por trás da exploração dos imigrantes? Não são pessoas do PCP, nem da esquerda. São precisamente aqueles que dizem que os imigrantes “roubam empregos”, mas que depois lhes pagam salários de miséria, sem contratos, sem direitos, sem proteção.
Se houvesse coragem para pagar salários justos, se houvesse coragem para acabar com a precariedade, não faltariam trabalhadores portugueses. Eu jamais aceitaria trabalhar por 450 ou 600 euros por mês — e como eu, milhares de portugueses recusam.
É aqui que a porca torce o rabo: o patrão oferece um salário indigno, o português diz não, o posto fica vago e acaba por ser ocupado por um imigrante desesperado, muitas vezes ilegal, que aceita porque precisa sobreviver, porque tem família no seu país de origem a passar fome e porque não tem alternativa.
O problema não são os imigrantes.
O problema é um sistema que vive da exploração e depois aponta o dedo às vítimas.
Portugal perdeu uma grande oportunidade: seguir em frente com as conquistas de Abril.
Enquanto o povo aponta o dedo ao lado errado, os verdadeiros responsáveis continuam intocáveis.

Assina : António Santos 

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