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quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

A Nova Ordem (de Hitler a Trump):

 (Manuel Loff, in Público, 07/01/2026)


A dupla impunidade imperialista e fascista, com Trump como com Hitler, consegue-se quando quem tem capacidade de a impedir prescinde de o fazer.

Perguntada anteontem se a UE entendia que o ataque militar dos EUA à Venezuela foi “uma intervenção, uma invasão, um ato de agressão, um golpe externo?”, a porta-voz da Comissão Europeia recusou-se a discutir a “terminologia” dos acontecimentos, e criticar ou condenar Trump. “Não creio que isso seja relevante” (PÚBLICO, 6/1/2026 ). O tom foi o mesmo entre os governos da UE, desde o chanceler alemão (para quem a questão legal é “complexa”) até Paulo Rangel, que não só encontra “intenções benignas” em Trump, como, jurista que é, precisava ainda assim de falar com “os seus “homólogos na Europa e os EUA, no sentido de ter uma visão mais completa da situação” para poder definir o ataque à luz do Direito Internacional.

É coerente que Israel, campeão das violações de direitos humanos e da legalidade internacional, tenha “felicitado” Trump “pela sua decisão” e “aplaudido as forças militares estadunidenses que levaram a cabo uma operação impecável” (a expressão é a mesma que tem usado a oposição antichavista e os seus vários porta-vozes em Portugal). A ele juntaram-se Milei, Zelensky e Corina Machado; era inevitável. Mas é patético que Rangel, para quem Portugal “valoriza sempre a legalidade internacional e a Carta das Nações Unidas”, não consiga perceber o que percebeu Guterres e os governos dos maiores países da América Latina ou o de Espanha: que se trata de uma violação descarada de toda a legalidade internacional. E que este é, depois da impunidade israelita na Palestina, um dos atos fundadores da Nova Ordem trumpista. Hitler quase conseguiu impor uma na II Guerra Mundial. Foi o que se viu.

Mas voltemos à questão da “terminologia”. Regularmente insultados por toda a pandilha MAGA, que os neoliberais que dominam quase todos os governos europeus, em grande parte dos casos de mãos dadas com neofascistas que se sentem vingados por Trump, manifestem tanta falta de vontade em chamar as coisas pelos nomes, quer face a este ato de guerra ilegal contra a Venezuela como em três anos de genocídio em Gaza, diz tudo do processo de degeneração política que o neoliberalismo tem significado desde há já meio século. Esse processo tem um nome: fascização.

Trump reproduz neste século o que Mussolini inaugurou na política de massas de há cem anos: uma “liderança desinibida” e narcísica como lhe chama Wendy Brown em Nihilistic Times (2023). Quando a justiça italiana acusou, em 1925, vários squadristi fascistas do assassinato de Matteotti, um dos deputados socialistas que ainda sobravam no Parlamento, Mussolini, já então à frente do Governo, vangloriou-se de ser o capo do partido dos assassinos e desafiou, mão na anca, quem o quisesse enfrentar: “Fui eu que quis que as coisas chegassem a este ponto extremo”. Chama-se a isto impunidade, e o fascismo é, nos anos 1920-45 como nos dias de hoje, a reivindicação da impunidade do mais forte para fazer valer uma supremacia que julga ter-lhe sido dada pela acumulação de riqueza, pela tradição, por Deus ou simplesmente pela sua capacidade real de desprezar os valores da igualdade e todas as regras da própria constitucionalidade liberal.

A dupla impunidade imperialista e fascista, com Trump como com Hitler, consegue-se quando quem tem capacidade de a impedir prescinde de o fazer. No sistema internacional, deveria ser a ONU e o TPI quem deveriam atuar. Que não o possam fazer agora, e que continuem a não poder fazê-lo no genocídio de Gaza, deve-se exclusivamente aos EUA e aos seus aliados europeus no Conselho de Segurança. E à desoladora cobardia política (e moral) dos dirigentes dos aliados dos EUA na NATO, esse bando de “chamberlains”, como lhes chamou Ana Sá Lopes neste jornal em referência ao estadista britânico que apaziguou Hitler até ele invadir a França em 1940. Já nem sequer é ironia que eles se possam encontrar muito brevemente na mesma posição de Maduro quando Trump mandar invadir a Gronelândia, convencido, como dizia ontem com razão um assessor de Trump, que “ninguém oporá resistência armada aos EUA”. Apostamos em como a primeira-ministra da Dinamarca vai engolir a sua tese de que esse dia seria o do “fim da NATO”?

O autor é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o acordo ortográfico de 1990

Do blogue Estátua de Sal

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