Cecília Pedro
Antes de entrar para a faculdade quis começar a trabalhar logo. Corria o ano de 1976. Queria ir para a faculdade e trabalhar simultaneamente. Não queria viver à conta dos pais. Foram 3 longos anos até o conseguir finalmente, e após muita persistência, com concursos públicos para várias instituições, uma delas o Banco de Portugal. No Banco de Portugal, por exemplo, fiquei muito bem classificada, nos primeiros lugares num concurso a nível nacional, simplesmente não entrava ninguém nascido em Portugal Continental, sem que todos os retornados tivessem entrado (mesmo com notas inferiores aos nacionais). Na instituição pública onde entrei para trabalhar (já com 22 anos) e já no terceiro ano da faculdade foi a mesma situação. Entraram esses e depois os nacionais. Lobies sobre lobies, directivas políticas, para entrarem retornados e muitos sem habilitação própria para as funções, eram tantas vezes inventadas e não comprovadas. Na instituição onde comecei a trabalhar, conheci mesmo, um administrativo, que trabalhava em construção civil em Angola, mal sabia escrever ou falar decentemente, entre tantos outros.
Convivi com esta injustiça mórbida (de a bem da liberdade e humanidade do 25 de Abril e das suas consequências ) os nacionais, ficarem " em banho Maria " porque era preciso reintegrar socialmente as famílias retornadas, dando-lhes prioridade nos acessos ao mercado de trabalho e não só. Recebemos e acolhemos no nosso espaço desde há 51 anos, pessoas maioritariamente egoístas, com a mania da grandeza e de carácter muito deformado, com a mania que nasceram para serem servidos e serem todos ricos à custa de outros.
Nem todos, mas a maioria destes retornados, são os mesmos, que agora engrossam fileiras na Seita, e que absurdamente e sem memória e empatia alguma têm discurso contra a emigração, mesmo a escrava. Os mesmos que invejam RSI's, perseguem ciganos e outras minorias. Os mesmos que são racistas "e mandam pessoas para a terra delas" ainda que sejam refugiados e até fujam da guerra. Ainda que vivam miseravelmente.
Para além da enorme revolta e indignação que me criam, fazem-me arrepender de ter sido uma humanista tolerante com as circunstâncias pessoais deles na altura da descolonização. Bem ou mal a descolonização teve que acontecer a bem da humanidade e da vergonha que era a guerra . Arrepender-me de os ter recebido e tratado como iguais. De ter adiado 3 a 4 anos o meu primeiro emprego por causa de circunstâncias a que era alheia, e para a qual não contribui. A opção foi deles " terem saído do país e terem ido ocupar terras e usado riquezas que não eram deles" . Injustiça e vidas faustosas sustentadas pelos corpos dos nossos jovens soldados saídos daqui para morrerem. Corpo também do meu pai, pois lá esteve a lutar com enorme risco de vida, e destruição da sua própria sanidade mental. Ficou com a vida num farrapo com o sofrimento na guerra. Era sensível o meu lindo pai. Depois da guerra, acordava a gritar de noite, e tantas vezes. Eu estava sempre em sobressalto com o seu humor.
Fui vítima das más opções de outros de muitas maneiras. Ainda assim, escolhi a empatia e a humanidade, o acolhimento, a compreensão. A aceitação das diferenças e circunstâncias.
Até aos dias que correm, não conheci uma única família retornada que tenha sido totalmente abandonada a sua má sorte, e que viva mal dentro dos padrões económicos portugueses. Antes pelo contrário.Todos se reconstruíram e muito bem, tantas vezes melhor do que aqueles que nunca saíram de cá. Foram acolhidos, e ninguém lhes disse para emigrarem para outros países porque cá não tinham lugar.
São estes que falei, que agora desejam os 3 Salazares, fazer o funeral ao 25 de Abril, e que os desgraçados dos emigrantes miseráveis que seguram a nossa economia vão para a terra deles. Odeiam pessoas com pele mais escura, são arrogantes, incultos e odiosos. Umas belas bestas!
A indignação por esta gente existir garante a continuidade da minha humanidade e sentido de justiça. Justiça é repudia-los agora, e considera- lis inimigos do meu esforço, boa vontade e merecida paz e estabilidade emocional.
Bendita indignação, que preservo a bem da minha consciência. E a vontade que tenho de os mandar para "a pura da mãe deles" e de os ver sair daqui para fora.
Não merecem este País, nem tampouco o acolhimento que lhe fizemos, no meu caso e em tantos outros com elevadíssimos custos pessoais.
cp

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