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terça-feira, 26 de abril de 2022

Oitenta voltas ao Sol…

Acabo de completar 80 voltas ao Sol, montado aqui neste planeta chamado Terra, que, segundo uma sua “breve história” que há pouco li [de Andrew W. Knoll], carrega já qualquer coisa como quatro mil milhões de anos. Se a Terra é, assim, um velhíssimo calhau perdido na imensidão do Universo — esse com 13,5 mil milhões… —, bem poderia a Humanidade ter bem presente como são ridículas as feiras de vaidades e as guerras em que tantos se comprazem, sem se darem conta do ridículo em que caem.
Eis-me, pois, chegado aos 80 anos de idade, a lembrar-me de uma sentença de Mark Twain, para quem as datas mais importantes da nossa vida são o dia em que nascemos e o dia em que percebemos porquê. [Neste ponto, eu atrever-me-ia a fazer uma pequena modificação à nota do mestre, dizendo que essa segunda data é o dia em que percebemos para quê…].
Esta minha entrada numa nova década de vida, faz-me olhar muito brevemente para o tempo que já passou, evocando uma outra sentença, esta de Abraham Lincoln, para quem não são os anos na nossa vida que contam, mas, sim, a vida nos nossos anos. [“It’s not the years in your life that counts. It’s the life in your years!” — como se lê numa pequena placa aderente, que tenho bem à vista, aplicada numa superfície metálica, aqui em casa].
Procurei preencher esta carrada de anos que me foi dado viver até agora com alguma vida dentro deles, não tanta quanto cheguei a desejar, mas não me posso queixar. Claro que também cometi muitos erros, mas só se não fosse um ser humano é que disso estaria livre. Mesmo assim, atrevo-me a pensar que o saldo é positivo.
Meia-dúzia de mazelas de saúde ocorreram também, ao longo da vida, mas sempre largamente compensadas por um apoio insuperável de um clã familiar de excepção. Posso, portanto, queixar-me alguma coisa neste domínio, mas não muito.
Na “economia” deste post não cabem nomes, nem do passado, nem do presente. Abro, porém, uma excepção para recordar a minha mãe (chamava-se Celeste), porque sem ela eu não estaria, provavelmente, aqui, a celebrar esta etapa redonda dos 80 anos. Foi o caso que, tendo ela enviuvado aos 49 anos (tinha eu apenas nove…), foi graças ao seu esforço a dar explicações em casa, a adultos que procuravam sair do analfabetismo, que criou dois filhos sozinha, até que ela própria não aguentou as suas fragilidades — e morreu, quando eu tinha apenas 19 anos e me vi obrigado a começar a trabalhar. [Apenas acrescento uma nota: sim, nessa época, nos anos 1950, o analfabetismo dos adultos era uma realidade hoje dificilmente imaginável!…].
No plano profissional, depois de ter trabalhado, por conta de outrem, durante muitos anos, em diversos jornais e revistas de diferentes empresas, posso averbar na minha conta pessoal alguns contributos significativos, no pós-25 de Abril de 1974, designadamente na criação de “O Jornal” e da “Visão” e dos respectivos apêndices (“Se7e”, ”JL” e “História”, entre outros), ou no lançamento da TSF-Rádio Jornal, além, naturalmente, da frutuosa relação estabelecida com o grupo Edipresse, de Lausanne.
Em paralelo, posso também registar no meu currículo a tarefa de operar a recomposição da Casa da Imprensa, que chegou a ter os dias quase contados por causa da extinção, por um Governo do PS/Sócrates, da Caixa de Previdência dos Jornalistas.
Agora, estou profissionalmente reformado, mas não deixo de renovar a minha carteira profissional de jornalista, o único ofício que exerci, desde 1963. Por causa dessa coisa a que costuma chamar-se a “lei da vida”, é bem possível que a carteira renovada de que estou à espera já tenha um número inferior ao actual n.º 4. Se isso acontecer, tenciono dedicar essa “proeza” aos meus muitos jovens camaradas que, por estes dias, exercem o seu mister com excepcional coragem na miserável guerra da Ucrânia, indiferentes aos especialistas de sofá que os criticam por isto ou por aquilo…
Quando era pequeno, fartei-me de ouvir uma daquelas frases feitas que, no fundo, não querem dizer nada, e que no caso concreto dizia que “aos 2000 chegarás; dos 2000 não passarás!…” Não sei quantos anos terei ainda pela frente para viver, mas tenciono fazer o possível para continuar a fazer com que esses anos, assim o espero, continuem a ser preenchidos com a vida recomendada por Lincoln…
José Silva Pinto:

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