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sábado, 30 de abril de 2022

Delenda PCP!

(José Gabriel, in Facebook, 30/04/2022)

Omais trágico do que se passa em programas com pretensões a humor ligeiro (Governo Sombra) ou escárnio e má-língua (Eixo do Mal) é que, tendo fidelizado espectadores nessas relativamente indigentes ambições, sujeitam agora os que ainda os veem a “análises” que em nada ultrapassam as conversas de tasca mais analfabetas (os jornalista chamados “sérios” não fazem melhor, valha a verdade).

Nem a preocupação de verificar factos – a ideia é serem giros e ligeiros -, nem a de manterem a mínima decência argumentativa. Até Ricardo Araújo Pereira vai na onda e, pior, deixou de ter piada, por não terem graça os que a tentam ter por encomenda paga.

“Delenda PCP!”, é a ordem dos donos. A encomenda inclui, agora, a demanda pidesca de criminalizar as posições desse partido e o novo motivo é a acusação de que o governo ucraniano tem levado a cabo uma limpeza étnica. Ora, a indignação dos nossos tabernícolas opinantes podia ter levado em conta o simples facto de  essa limpeza étnica estar consagrada em lei, aprovada pelo parlamento ucraniano e promulgada pelo presidente Zelensky, lei que, já aprovada na sua primeira forma antes da guerra, foi aprofundada até chegar a penas de prisão para os pró-russos – sem sequer se definir o que tal seja – que vão até aos 15 anos de prisão, podendo chegar a prisão perpétua se o meritíssimo juiz assim entender.

Entretanto, no Oeste – Lviv, sobretudo – parece que se tentam matar saudades dos pogrons dos tempos da II Guerra, dos mais cruéis levados a cabo na Europa, perseguindo judeus e ciganos com uma entusiástica brutalidade. Não são precisas muitas formalidades: é só acusá-los de pró-russos, sejam-no ou não.

Mas que interessa tudo isto à escumalha que fez sua, com comovente entusiasmo, a tarefa inacabada por Salazar: acabar com os comunistas. Causa a que já se juntou a própria embaixadora da Ucrânia e alguns dos compatriotas seus, em termos que, num país decente, já lhe teriam valido a expulsão sumária. Tudo acompanhado de um discurso de piedosa intenção moral e, até, religiosa, na melhor tradição cerejeira.

E, amigos de Setúbal, a partir de agora, se quiserem tradutores que falem russo no acolhimento dos emigrantes e refugiados, convidem o Milhazes para vos ajudar na vossa solidária missão; é que as associações de acolhimento de refugiados do Leste da Europa incluem, há muito tempo, russos – abrenúncio! Direis que a Câmara de Aveiro e outros insuspeitos municípios trabalharam com essas mesmas associações; é verdade, mas essas são dos “bons”, não é?

E não se preocupem em lembrar que a Câmara de Lisboa, ela sim, fornecia – diretamente e sem intermediários – dados de manifestantes e outros cidadãos russos à embaixada da Rússia, sem dúvida com a mais democrática das intenções – ninguém vos quer ouvir, ninguém se vai lembrar disso. Como não se querem lembrar dos governos que chafurdaram na negociata dos vistos gold, nas privatizações ruinosas de empresas públicas em benefício de empresas estatais da China, dos amores dos governos do PS e PSD com o amigo- deles – Putin quando isso rendia, tudo isto amplamente documentado e que agora levam à cómica situação de até jornais seriíssimos – quiçá infiltrados por comunistas – como o The Economist ostentarem, num alarde de humor negro, títulos de capa como “The rise and fall of Londongrad“. Pois.

Nota 1 : “Delenda!”(latim) – Significa “deve ser destruído!”.

Nota 2: Os bonecos da ilustração são de Uderzo, claro.

Do blogue Estátua de Sal

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