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quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Porque não há locutores ou apresentadores negros na TV portuguesa?

Muito mais do que mil manifs de rua ou inflamados discursos “anti-racistas”, vale a análise séria dos fenómenos do preconceito racial e, sobretudo, das práticas quotidianas de discriminação racial em Portugal, pondo com rigor o dedo na ferida e apresentando, com serenidade e inteligência, propostas de reformas viáveis e realistas. O racismo propriamente dito também existe em Portugal, mas, para combater as suas principais expressões, que são principalmente casos de polícia, temos a lei penal e a Constituição.

Um dos casos mais patentes de preconceito e discriminação racial é, em Portugal como numa nação tão multirracial como o Brasil, a invisibilidade dos afro-descendentes na comunicação audio-visual, muito especialmente na informação, programas de debate e talk-shows. Ora a televisão é (ou podia ser) um dos meios mais eficientes, se não o mais eficiente, do combate ao preconceito e à discriminação racial.

Ao contrário de um país dito “racista” como os EUA, os canais de televisão portugueses (e brasileiros), públicos ou privados, não têm locutores de notícias, comentadores, entrevistadores ou pivôs de talk-shows negros, nem sequer apresentadores de programas de entretenimento, desporto ou meteorologia, salvo raríssimas excepções. A RTP 2, que quase ninguém vê, apresenta de longe em longe filmes de realizadores africanos e acha cumprida a sua missão. Se quisermos ver negros que não sejam atletas, futebolistas ou músicos nos canais de televisão de grande público, a solução é ver a CNN, o 60 Minutes da CBS, filmes americanos, séries americanas, inglesas, francesas ou escandinavas, telejornais franceses ou até alemães. Até a NHK japonesa e a CGTN chinesa têm apresentadores negros.

A RTP África, onde predominam os profissionais portugueses brancos, é um curiosíssimo canal onde alguns jornalistas afro-descendentes também podem fazer trabalhos destinados… aos africanos dos PALOPs (ia quase a dizer: aos povos das colónias). Na RTP 1, 2 e 3, que eu saiba, não há jornalistas negros a fazer programas para portugueses (brancos ou negros) e sobre a realidade portuguesa (negra ou branca). Como se esses jornalistas — se é que os há por lá — não fossem também portugueses e não tivessem legitimidade para trabalhar e falar sobre a sociedade, a política ou a cultura portuguesa. O preconceito consciente ou inconsciente está aqui presente em toda a sua força.

A situação em Portugal nas últimas décadas melhorou quase exclusivamente em alguns programas de entretenimento, com a participação de actores e outros profissionais afro-descendentes. Até no tempo do Estado Novo havia um locutor de notícias da RTP que era negro. Dir-se-á que era propaganda conveniente no tempo da guerra colonial, mas depois do 25 de Abril os locutores negros simplesmente desapareceram da televisão. Interessante efeito da descolonização!

Tudo isto e muito mais é exposto numa tese de mestrado apresentada há dez meses no ISCTE por Helena Patrícia Vicente, “Presença e percepções dos profissionais negros nos programas de informação e entretenimento na televisão portuguesa”, baseada numa investigação que abrange o período 1992-2017 e que se pode ler aqui. Faz o diagnóstico e apresenta propostas e estratégias para uma mudança. Não me lembro, na minha inocência, de a autora ter sido entrevistada por nenhum canal da televisão portuguesa sobre o tema da sua tese…

Do blogue Aspirina B

 POR JÚLIO


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