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quinta-feira, 6 de agosto de 2020

O HOMEM FORMATADO:

Todos nós somos formatados. Vivemos formatados e morremos formatados. Entramos neste mundo dependentes dos outros. É com os outros que aprendemos a falar, a andar, a adquirir hábitos e formas de relacionamento. São os outros que decidem, também, como nos despedimos do mundo e quem nos acompanha.

A nossa vida é um palco, como referem muitos autores. As casas têm divisões que funcionam como bastidores onde nos preparamos para os nossos papéis de todos os dias.
Porém, à parte esta formatação socializada pela necessidade de sobrevivência e pela vida em sociedade, há outra formatação que nos é “vendida” todos os dias. Uma formatação que hoje se processa à velocidade da luz através da comunicação e das novas tecnologias. Através das organizações de poder que hierarquizam e matam todas as especificidades e padronizam as manifestações mais simples.
O ser humano perde todos os dias a sua genuinidade e transforma-se numa peça duma globalização brutal e sem limites que não respeita a sua diferença.
As crianças não escolhem com o que brincam. Agarram-se aos telemóveis e às tecnologias absorvendo-as obsessivamente como se em seu redor não existisse mais nada. As escolas aplicam programas padronizados, impostos pelos valores do consumo e do classicismo, sem se importarem com as riquezas da diversidade. Esmaga-se a criação e formam-se os mitos duma “evolução” que nos regride.
O absurdo transforma-se em regra. A comunicação domina-nos e não nos liberta. Somos adultos sem mão em si mesmos, mas sempre obedientes a uma regra: ser o que os outros são para não sermos discriminados. Desprezamos a nossa língua para adoptarmos as frases da moda ditas em inglês. Adoptamos a miséria da indiferença como se fosse um valor inquestionável. Nunca fomos tão escravos nesta falsa noção de sermos livres. Gostamos do que é moda. Do que os outros têm. E para isso vendemos a alma e a tranquilidade dos dias.
Há os que se revoltam contra tudo e contra todos frustrados e infelizes nas suas masmorras. Outros enchem-nos com mensagens de positivização “segue o teu sonho”, “tudo depende de ti”, “puxa pela resiliência” e daí por diante. Mensagens de desespero a procurar afecto e esperança onde está o vazio.
Os países e regiões privilegiam os consumos deste mundo moderno símbolo duma civilização decadente e obsoleta. O MacDonald pode ser consumido no Egipto. O gosto musical é o dos países dominantes. Tal como a forma de nos vestirmos e de nos comportarmos.
A diversidade, a contradição e a genuinidade de cada lugar vão-se transformando num todo indiferenciado a que nos vergamos. É como se déssemos um mergulho no mar e ficássemos sem ver nem ouvir durante largos instantes. Só que desta vez não ficamos atordoados por um mergulho breve. Ele prolonga-se em nós durante todo o ciclo de vida. Apropria-se de tudo o que somos e podíamos ser.
O que está em causa não são os a actos que se praticam nem a forma como nos governam. O que está em causa é que nos deixamos engolir pelo tsunami duma globalização que destrói mais que qualquer epidemia e qualquer guerra e, mais do que elas, deixa muitos mortos e mutilados. O preconceito e o estigma criam força no mundo em que a sobreposição se impõe à integração e ao respeito. Larga-se tudo para se querer tudo. Fica-se de mãos vazias sem espaço para nós e muito menos para os outros.
Estamos num fim de ciclo. Numa era decadente. Só com uma mudança radical se pode continuar a viver e a ser gente.
Lídia Soares
Sociedade Justa

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