Todos nós somos formatados. Vivemos formatados e morremos formatados. Entramos neste mundo dependentes dos outros. É com os outros que aprendemos a falar, a andar, a adquirir hábitos e formas de relacionamento. São os outros que decidem, também, como nos despedimos do mundo e quem nos acompanha.
Umas de maior importância que outras. Outrora assim acontecia. É por isso que gosto de as relatar para os mais novos saberem o que fizeram os seus antepassados. Conseguiram fazer de uma coutada, uma aldeia, depois uma vila e, hoje uma cidade, que em tempos primórdios se chamou Fredemundus. «(Frieden, Paz) (Munde, Protecção).» Mais tarde Freamunde. "Acarinhem-na. Ela vem dos pedregulhos e das lutas tribais, cansada do percurso e dos homens. Ela vem do tempo para vencer o Tempo."
Rádio Freamunde
https://radiofreamunde.pt/
quinta-feira, 6 de agosto de 2020
O HOMEM FORMATADO:
A nossa vida é um palco, como referem muitos autores. As casas têm divisões que funcionam como bastidores onde nos preparamos para os nossos papéis de todos os dias.
Porém, à parte esta formatação socializada pela necessidade de sobrevivência e pela vida em sociedade, há outra formatação que nos é “vendida” todos os dias. Uma formatação que hoje se processa à velocidade da luz através da comunicação e das novas tecnologias. Através das organizações de poder que hierarquizam e matam todas as especificidades e padronizam as manifestações mais simples.
O ser humano perde todos os dias a sua genuinidade e transforma-se numa peça duma globalização brutal e sem limites que não respeita a sua diferença.
As crianças não escolhem com o que brincam. Agarram-se aos telemóveis e às tecnologias absorvendo-as obsessivamente como se em seu redor não existisse mais nada. As escolas aplicam programas padronizados, impostos pelos valores do consumo e do classicismo, sem se importarem com as riquezas da diversidade. Esmaga-se a criação e formam-se os mitos duma “evolução” que nos regride.
O absurdo transforma-se em regra. A comunicação domina-nos e não nos liberta. Somos adultos sem mão em si mesmos, mas sempre obedientes a uma regra: ser o que os outros são para não sermos discriminados. Desprezamos a nossa língua para adoptarmos as frases da moda ditas em inglês. Adoptamos a miséria da indiferença como se fosse um valor inquestionável. Nunca fomos tão escravos nesta falsa noção de sermos livres. Gostamos do que é moda. Do que os outros têm. E para isso vendemos a alma e a tranquilidade dos dias.
Há os que se revoltam contra tudo e contra todos frustrados e infelizes nas suas masmorras. Outros enchem-nos com mensagens de positivização “segue o teu sonho”, “tudo depende de ti”, “puxa pela resiliência” e daí por diante. Mensagens de desespero a procurar afecto e esperança onde está o vazio.
Os países e regiões privilegiam os consumos deste mundo moderno símbolo duma civilização decadente e obsoleta. O MacDonald pode ser consumido no Egipto. O gosto musical é o dos países dominantes. Tal como a forma de nos vestirmos e de nos comportarmos.
A diversidade, a contradição e a genuinidade de cada lugar vão-se transformando num todo indiferenciado a que nos vergamos. É como se déssemos um mergulho no mar e ficássemos sem ver nem ouvir durante largos instantes. Só que desta vez não ficamos atordoados por um mergulho breve. Ele prolonga-se em nós durante todo o ciclo de vida. Apropria-se de tudo o que somos e podíamos ser.
O que está em causa não são os a actos que se praticam nem a forma como nos governam. O que está em causa é que nos deixamos engolir pelo tsunami duma globalização que destrói mais que qualquer epidemia e qualquer guerra e, mais do que elas, deixa muitos mortos e mutilados. O preconceito e o estigma criam força no mundo em que a sobreposição se impõe à integração e ao respeito. Larga-se tudo para se querer tudo. Fica-se de mãos vazias sem espaço para nós e muito menos para os outros.
Estamos num fim de ciclo. Numa era decadente. Só com uma mudança radical se pode continuar a viver e a ser gente.
Lídia Soares
Sociedade Justa
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