"Meia verdade é sempre uma mentira inteira" - Provérbio Chinês
A verdade e a mentira parecem dois conceitos antagónicos, mas talvez não sejam. A verdade é, para cada um, aquilo que os seus olhos vêem. Mas existem outras formas de olhar. E logo outras verdades. E, assim sendo, o que é verdade para uma pessoa pode não ser para outra.
Isto num conceito mais amplo. Há realidades objectivas que todos aceitamos como factos inquestionáveis: desabou um edifício, houve um acidente, etc. A interpretação e o significado dessa verdade objectiva já será variável em cada um.
E a mentira? Que será de facto? Independentemente da subjectividade penso que a mentira se assume como tal quando transmitimos uma versão diferente daquela em que acreditamos. E podemos fazê-lo por vários motivos.
A mentira é condenável quando a usamos para nos desculparmos, para dela tirarmos partido e para que os outros acreditem naquilo que não somos. A mentira é condenável quando prejudica terceiros. A mentira é condenável quando intencionalmente leva ao logro e ao engano. Só a verdade (aquilo em que acreditamos) nos redime. Nos mantém erectos. Nos dá um rosto e uma identidade. Por essa verdade vale a pena viver, vale a pena lutar, e vale a pena morrer.
Mas de facto todas as pessoas mentem. Mentem ao dizer o contrário do que pensam, mas mentem também através de inverdades ou de partes da verdade que, intencionalmente, se escondem. Afastam por isso o outro do cenário real que querem omitir.
A verdade deve ser um valor e ter um rosto credível é o maior bem que podemos possuir.
Porém há mentiras que também são verdades e que têm a mesma força humana da razão. As mentiras que se dizem, ou as realidades que se ocultam, porque a verdade fere e porque, conhecê-la, não trará ao outro qualquer benefício. Qualquer possibilidade de reclassificação.
Poupar alguém ao sofrimento é um acto de coragem e de abnegação sublimes. E essa mentira ou inverdade tem a força da verdade e da razão. Porque tem a força dos sentimentos mais nobres que podemos albergar dentro de nós: poupar o outro a um sofrimento inútil.
E, por último, há que ter cuidado com as pessoas que se dizem muito frontais, mas que o propósito que têm é usar "as suas verdades", quase sempre subjectivas, para ferir e amachucar os outros e tirar-lhes a alegria de viver. E hasteiam como bandeira essas verdades que mais não são que uma serventia a frustrações e maldades a procurarem impor-se pelo domínio.

Lídia Soares
Sociedade Justa
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