Este texto é dedicado a todos os que são Pai. Não o posso fazer ao meu
porque vai fazer dezoito anos que o não tenho. Mas hoje sei dar mais valor ao
que é ser pai. Sou-o e, até como se costuma dizer, duas vezes. Não pelo facto
de ter dois filhos mas sim por ser avô. Com o declinar da idade sabemos
valorizar mais a condição de pai. Por isso a todos vai um bom dia de S. José
que é o mesmo que dizer um bom dia de pai.
"O Pai"
Terra de semente inculta e bravia,
terra onde não há esteiros ou caminhos,
sob o sol minha vida se alonga e estremece.
Pai, nada podem teus olhos doces,
como nada puderam as estrelas
que me abrasam os olhos e as faces.
Escureceu-me a vista o mal de amor
e na doce fonte do meu sonho
outra fonte tremida se reflecte.
Depois… Pergunta a Deus porque me deram
o que me deram e porque depois
conheci a solidão do céu e da terra.
Olha, minha juventude foi um puro
botão que ficou por rebentar e perde
a sua doçura de seiva e de sangue.
O sol que cai e cai eternamente
cansou-se de a beijar… E o outono.
Pai, nada podem teus olhos doces.
Escutarei de noite as tuas palavras:
… menino, meu menino…
E na noite imensa
com as feridas de ambos seguirei.
Pablo Neruda, in
“Crepusculário”

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