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terça-feira, 9 de junho de 2026

HOSPITAIS PÚBLICOS "ORIENTADOS" POR ADMINISTRAÇÕES DE AMIGADOS:

Há uma pergunta que os portugueses deveriam fazer sem receio e sem preconceitos partidários: quem governa realmente os hospitais públicos? Os profissionais que conhecem o terreno, os doentes que deles dependem, ou administrações escolhidas sobretudo pela sua proximidade ao poder político?
Nos últimos anos assistiu-se a uma profunda renovação das administrações hospitalares. Mudaram-se gestores, reorganizaram-se estruturas e multiplicaram-se as nomeações. Nada haveria de extraordinário se tais mudanças fossem acompanhadas por uma melhoria visível dos serviços prestados aos cidadãos. O problema é que muitos portugueses observam precisamente o contrário.
As urgências continuam sob pressão permanente. Os tempos de espera prolongam-se. Faltam médicos em diversas especialidades. Os profissionais denunciam exaustão e desmotivação. As greves sucedem-se. A fuga para o sector privado mantém-se. E, perante este cenário, raramente se escutam vozes firmes das administrações hospitalares a denunciar a insuficiência dos meios ou a contestar publicamente as políticas que contribuem para a degradação do serviço.
É aqui que surge uma suspeita legítima: terão os hospitais passado a ser dirigidos por gestores cuja principal função é executar orientações políticas, mesmo quando estas se revelam inadequadas para as necessidades do SNS?
A missão de uma administração hospitalar não deveria ser agradar ao governo do momento. A sua primeira obrigação deveria ser defender os interesses dos utentes, dos profissionais e da instituição que dirige. Quando um hospital não dispõe dos recursos necessários, espera-se que os seus responsáveis o digam claramente. Quando uma decisão política prejudica o funcionamento dos serviços, espera-se que a contestem. Quando as condições de trabalho se deterioram, espera-se que sejam os primeiros a alertar para os riscos.
Mas quando a lógica da nomeação assenta sobretudo na confiança política, corre-se o risco de transformar administradores em meros executores de orientações superiores. A autonomia desaparece. A crítica interna enfraquece. O contraditório torna-se incómodo. E a instituição perde uma das suas mais importantes linhas de defesa.
Os defensores deste modelo argumentam que qualquer governo necessita de equipas alinhadas com os seus objetivos. É verdade. Porém, existe uma diferença fundamental entre alinhamento estratégico e submissão administrativa. O primeiro é compatível com a competência e a independência. O segundo transforma organizações públicas em extensões partidárias do poder.
O resultado pode ser devastador. Hospitais silenciosos perante os problemas. Profissionais sem representação institucional efetiva. Utentes confrontados com serviços cada vez mais fragilizados. E um sector privado que cresce à medida que a confiança dos cidadãos no SNS diminui.
Seria ingénuo ignorar as consequências práticas de um sistema que privilegia a fidelidade política sobre a autonomia institucional. Quando os administradores deixam de ser os primeiros defensores dos hospitais que dirigem, os hospitais deixam de ter quem os defenda. O SNS foi concebido para servir os cidadãos e não os governos. Sempre que esta hierarquia de prioridades se inverte, não é apenas a gestão que falha. É a própria ideia de serviço público que começa a perder significado.
E essa talvez seja a doença mais perigosa que um sistema de saúde pode contrair.

Bom dia! 

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